Refúgios de prazer
O ser humano se adapta a quase tudo. Temos a capacidade de viver em diversos lugares e circunstâncias. Onde quer que estejamos, sentimos uma natural necessidade de prazer. Necessitamos bons momentos. Encaramos as mais adversas situações, aceitando em troca algumas doses de diversão. A semana de trabalho estressante, o trânsito congestionado, a fumaça, o medo... Tudo isso se perde ou pelo menos perde o significado quando chega a sexta-feira e nos sentamos em uma mesa de bar, rodeados de amigos. Ou quando nos encontramos com pessoas queridas, viajamos ou fazemos algo que nos proporciona prazer. É como se a vida ficasse mais amena. Desfrutamos nosso merecido momento de descanso.
Dando um zoom na questão, podemos analisar, em escala um pouco maior, como nossos anos estão divididos. São dez, onze meses de trabalho – sempre alimentados pelos pequenos refúgios de prazer – para podermos passar um mês de férias. Aí concentramos todas as energias. Esbanjamos, comemos fora, viajamos a praia, à montanha, tiramos fotos sorrindo e brincamos de viver momentos de pura alegria. Tudo é belo durante esse tempo que chamamos de férias. Quase esquecemos os outros onze meses que, em seguida, voltarão a dominar a quase totalidade do nosso tempo de vida útil...
O problema é que a nossa vida é cem por cento útil... Por mais que tenhamos capacidade de sobreviver e adaptar-nos às mais diversas situações – violência, frio, sujeira, poluição, etc. – podemos dedicar nossa existência a outros tipos de experiência, onde viver signifique mais do que apenas sobreviver. Onde ser signifique mais do que estar. Bem estar, estar bem. Todo o tempo. Sem medos, sem suplícios. Sem purgatórios.
...
Há algum tempo, fiquei sabendo que existe uma sociedade secreta, uma espécie de maçonaria, composta só de pessoas que resolveram viver bem. Dentro dessa sociedade, todos se ajudam. Não há nenhum tipo de crença, senão o sonho compartilhado de viver num mundo melhor hoje mesmo. Normalmente, os que se iniciam nesse rito são convidados de membros mais antigos, jamais por acaso. Mas também há outras formas de ingresso, só que o candidato deve encontrar o caminho e decifrar alguns enigmas por conta própria. Foi assim que entrei.
As pessoas que entram nessa sociedade trabalham, estudam, viajam, mas vivem o tempo todo de férias, seja em movimento, seja vivendo em um determinado lugar. Não conhecem diferença entre obrigação e diversão. São meros usuários temporários e circunstanciais das coisas belas. Respiram ar puro por opção. Vivem sem qualquer tipo de pressão. Voam sem sair do chão... Passam o tempo ouvindo e dizendo sim, pois desconhecem a palavra não. Desistiram do medo, da insegurança e a responsabilidade, em seu sentido pleno, virou uma paixão. Abriram o coração. E o portão, de casa, para quem quiser entrar...
Mas onde isso vai parar? Ninguém aqui se importa. Cansamos de pensar nos fins. Qualquer destino é ilusão. Já sabemos pra que lado devemos andar e andamos com tesão. A cada dia somos mais. Cada segundo vale ouro.
Para juntar-se a nós, o candidato deve portar apenas poucos documentos: a certidão de coragem e o mero passaporte da sinceridade.

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home