Forma e conteúdo
Parte branca
O tudo e o nada se identificam por serem opostos. Quando nós, homens, descobrimos a razão, logo nos apaixonamos por ela. Antes, raciocinávamos sem pensar na razão. Nossa razão, então, foi logo dividindo as coisas. Para se compreender o tudo, é necessário que se compreenda o nada. Mas, é importante que se diga, não há como compreender noções tão vagas através apenas da razão. Até porque a razão é apenas uma de nossas faculdades, um dos pólos de nossa essência. E nossa essência, jamais pode ser completamente afastada da nossa aparência. Os opostos se atraem? Não. Se identificam? Sim, justamente por serem opostos. Complicado? Não e sim.
Pensamos, logo existimos. Certo? Não. Então, existimos, logo pensamos? Também não. Existimos e pensamos ao mesmo tempo? Talvez... Somos e estamos em tudo? E em nada? Sempre e nunca? Parece mais razoável. Porque deveríamos abrir mão da matéria e ficar apenas com o espírito? Ou renunciar à espiritualidade e nos agarrarmos à matéria? Porque?
Porque desistir de um sonho em prol da realidade? Ou vice-versa? O que é sonho? O que é realidade? Estamos acostumados a dividir pateticamente as coisas em dois. Por exemplo: ou somos liberais ou somos socialistas; normais ou loucos; razão ou emoção. Não há como sermos um pouco de cada? Muitos diriam que não.
No entanto, até hoje nenhuma pessoa encontrou a fronteira exata entre a razão e a loucura, entre o que é certo e o que é errado. No máximo, temos consensos sobre extremos. O direito de propriedade, criado pelo homem, é considerado correto pela imensa maioria das pessoas. De qualquer forma, a grande maioria dos consensos são temporários. Até porque o que é considerado normal hoje pode vir a ser considerado ridículo amanhã. E vice-versa.
Será que existe uma linha divisória entre o que é do corpo e o que é da alma? O que fazer para superarmos essa dualidade e vivermos ambas as dimensões, com toda a inteireza e com toda a beleza?
Como enxergar a unidade naquilo que estamos acostumados a ver uma dualidade, sem, no entanto, deixarmos de contemplar a mesma dualidade, em toda a sua beleza? Nossa vida cotidiana é fundamentada por princípios cronológicos, deterministas e demasiado racionais. Um bom exercício é prestarmos mais a atenção em manifestações artísticas. Até porque dizem que a vida imita a arte. Ou seria a arte que imita a vida?
Às vezes, um sorriso diz muito mais que um livro, uma música. Uma decisão judicial pode ser muito mais bela que uma poesia. Até porque os opostos não se opõe em absoluto. Vida e arte, sonho e realidade, liberdade e igualdade, matéria e forma...
Brindemos à falência da razão prática! Saudemos a imperfeição, manifestação máxima de qualquer ideal de perfeição! Olhemos nos olhos.
II
Parte vermelha
Segurança jurídica ou eqüidade? Matéria ou forma? Ou ambos? Nosso sistema jurídico coloca a forma acima do conteúdo. O ensino do direito nas universidades se resume, via de regra, ao estudo da legislação vigente. As ciências jurídicas são cadê vez menos sociais. Os técnicos do direito que dominam os regulamentos é que são considerados os "bons advogados". Seus honorários são altos. Quantos podem pagar caro por um especialista?
A justiça está sendo escravizada pela forma. Está sendo vendida aos sanguessugas de terno e gravata que passam mais tempo vendendo meios "legais" de se sonegar impostos do que defendendo pessoas simples do cárcere social. Não me refiro apenas às cadeias. As cadeias prendem a liberdade do corpo. Mas as nossas idéias são presas muito antes. Somos criados para repetir. E consumir nossa própria insignificância. Nossa educação é mera preparação para o mercado de trabalho. Tudo gira em torno do mercado. Temos que ser alguém na vida! E alguém disse que não existe mais escravidão no Brasil...
Nossa democracia é uma fachada elegante para uma ditadura muito perigosa. Uma ditadura que não conhece valores, pois tem a prerrogativa de neutralidade. A lei é igual para todos, não é mesmo? Mas a igualdade é apenas formal. Daí decorre a nossa liberdade, que fundamenta o liberalismo. Podemos fazer tudo o que a lei não nos impeça. Mas temos que aceitar a ditadura do mercado, que não conhece ética, pois se pretende neutra. De fato, o capitalismo (ou a ditadura do capital) é formalmente neutro.
Mas não podemos negar a existência de uma realidade material. Enquanto os técnicos, cada vez mais especializados em cultuar a aparente perfeição das formas e da segurança jurídica, se desdobram em descobrir cada vez mais artimanhas jurídicas, milhões de pessoas nem sabem o que é o princípio da ampla defesa.
Nesse ambiente completamente caótico, as penitenciárias estão cheias de gente que não pode contratar os conhecedores do "direito" napoleônico-burguês que regula nossas vidas. E são muitos os que não podem pagar pela justiça do formalismo tecnocrata. Muitos mesmo!
E, todavia, há quem defenda a primazia da economia sobre o direito. Enquanto o mercado se auto-regula livre e impunemente, os subúrbios das grandes cidades denunciam que alguma coisa está errada. Alguns gravetos isolados começam a pegar fogo. Pouco a pouco, juntam-se. Dois ou três. O fogo apaga. Juntam-se dez, vinte, cem. Fogueiras aparecem em meio ao mar de resignação. Pouco a pouco, atratores ganham força, ganham número. Há esperança.
III
Parte verde
A natureza pertence ao homem ou o homem pertence à natureza? As duas coisas ao mesmo tempo. Na verdade, somos a natureza. Precisamos juntar o que separamos! Forma e conteúdo, matéria e espírito, razão e loucura... Não somos alheios à natureza, mas parte dela.
Esta simples constatação nos conduz à várias conclusões esperançosas. Se somos parte de um todo, precisamos cuidar deste todo, que também é parte de nós mesmos. Se as outras pessoas também são partes do mesmo todo, elas são parte de nós mesmos. E nós, delas. Precisamos cuidar dos nossos irmãos como cuidamos de nós mesmos e da natureza, pois somos todos a própria natureza.
Não importa quem vem antes, o ovo ou a galinha. O que importa é que um depende do o outro, mutuamente. Sem ovos, não teremos mais galinhas, Sem galinhas, nada de ovos. Parece banal, mas pouca gente compreende isso, justamente pela simplicidade. Nos acostumamos a suspeitar logo de cara das coisas simples. Aprendemos a cultuar coisas complexas. Somos hipnotizados pela forma.
Mas como mudar as estruturas do mundo em que vivemos sem usarmos de violência? Como acabar com a ditadura do mercado sem mexermos com milhões de interesses? Como podemos fazer para atingirmos algum consenso?
Não nos iludamos! Ninguém nos dará a resposta objetivamente. Até porque a resposta está dentro de nós mesmos. O máximo a que se pode chegar é perto. Arte! Precisamos de arte nas nossas vidas. Dancemos livremente, sem coreografias ensaiadas.
Quando nos damos conta de que a vida é uma peça de teatro e podemos escrevê-la à nossa maneira, livremente, nos sentimos muito importantes. Aí, pensamos em escrevê-la de diversas formas... Pensamos, pensamos e nos damos conta de que não só estamos escrevendo a peça, mas que já estamos no palco, desde o começo, apresentando a versão final do nosso espetáculo.
O rascunho que foi amassado e jogado no lixo faz parte do nosso livro. As palavras que nunca foram ditas, os gritos presos na garganta, tudo. Cada um decide de que lado vai ficar. Se vai tomar a pílula azul ou se vai encarar a vermelha... Se quer dirigir seu próprio filme ou prefere ficar assistindo, calado, a vida desenhar seu roteiro, de acordo com o padrão estabelecido por um sistema programado para neutralizar-nos. Vamos desgarrar-nos do resto da boiada! Não sejamos abatidos assim, calados!
Resistamos! Acendamos um charuto para o nascimento de um novo homem. Um homem dotado de sensibilidade. Que se compreenda como parte e todo, todo e parte. Sempre existem fogueiras perto de nós. É só olharmos para o lado.


2 Comments:
Véio,
Tá muito massa esse teu blog.
Quando estava em Porto, tentei montar um, depois me irritei, desmontei, tentei de novo, até que desisti.
Quando olhei teu blog, tenho vontade de reativar novamente meus textos.
Parabéns, as gravuras são perfeitas.
Cadu
Paulo!
Muito legal o teu texto da forma e conteúdo!
Parabéns, estas escrevendo muito bem.
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