30.6.06

Marcola, por Arnaldo Jabor

Em sua colouna de 23/05/2006, no jornal O Globo, o jornalista Arnaldo Jabor publicou uma entrevista fictícia com Marcos Willians Herbas Camacho, mais conhecido como Marcola, comandante do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Apesar de forte e pessimista, sou obrigado a reconhecer que o teor da coluna é de cunho extremamente realista. Nos resta perguntar: estamos realmente interessados em compreender de verdade o problema? Ou seguiremos de olhos fechados, fingindo que tudo está certo e sob controle? Em que medida o personagem vivido por Arnaldo Jabor estaria correto?
...

Estamos todos no inferno. Não há solução; pois, não conhecemos nem o problema.

- Você é do PCC?

- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... Vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias... A solução é que nunca vinha... Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez: alocou uma verba para nós? E nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a "beleza dos morros ao amanhecer", essas coisas... Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão...

- Mas... A solução seria...

- Solução? Não há mais solução, cara... A própria idéia de "solução" já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios...). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psico-social profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível.Não há solução.

- Você não tem medo de morrer?

- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... Mas eu posso mandar matar vocês lá fora... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado n’uma vala... Vocês, intelectuais, não falavam em luta de classes, em "seja marginal, seja herói"? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... Mas, meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse País. Não há mais proletários ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas "com autorização da Justiça"? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

- O que mudou nas periferias?

- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$ 40 milhões, como o Beira-Mar, não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no "microondas"... ha, ha... Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

- Mas o que devemos fazer?

- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas... O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, "Sobre a guerra". Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... P’ra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também "umazinha", daquelas bombas sujas mesmo... Já pensou? Ipanema radioativa?

- Mas... não haveria solução?

- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a "normalidade". Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... Na boa... Na moral... Estamos todos no centro do insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês... Não tem saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabe por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: "Lasciate ogna speranza voi che entrate!" Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.

21.6.06

Burocracia...

Eu, na qualidade de ser humano pensante, que aceita viver em sociedade, me permito procurar uma constituição para meu mundo. Procuro uma constituição que seja um instrumento de garantia para todos os seres vivos e para o meio-ambiente. Que lhes garanta a sua integridade, preservação e seu desenvolvimento, em condições de dignidade, na qualidade de seres materiais e espirituais. Uma lei que preserve a liberdade, não apenas no sentido formal ou físico, mas cultural, espiritual e também moral. Procuro uma constituição que limite tais garantias apenas nelas mesmas, quando exercidas por outro ser ou mesmo pelo meio-ambiente. Que prescinda de leis regulamentadoras, uma vez que é bastante clara e profunda em si. Que não deixe a coletividade suprimir a individualidade, e que, também, não deixe o inverso ocorrer. Que tenha a solidariedade como meio para que se atinja uma sociedade que tenha o amor como valor fundamental, para que este possa se tornar, desde logo, fim e meio de fundamentação de qualquer discurso. Que seja aplicável desde a data da sua publicação e revogue todas as disposições em contrário.

15.6.06

Movimento

me pergunto, mas não respondo
ando, viajo,
fujo, procuro
encontro

perco, esqueço
desato, me animo
amarro

luto com força
venço e me dou conta
de que ainda é o começo
sempre

e que o fim...
é o movimento

7.6.06

"Violência contra a democracia"

Sensacionalismo, hipocrisia ou defesa de interesses?
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O Jornal Hoje, da Rede Globo, começou hoje da seguinte maneira: "tudo sobre o atentado à democracia, ocorrido em Brasília". O outro repórter anunciava, em seguida, para a outra câmera: "tudo sobre o aniversário do capitão Cafu, direto de Königstein, na Alemanha".

Realmente, é muito difícil falar alguma coisa, sobre coisas tão óbvias. O congresso nacional é um antro que concentra os maiores ladrões deste país. Os bandidos mais perigosos que este país possui não estão em presídios, comandando ações terroristas através do telefone celular. Estes são os mais inofensivos (em larga escala) Os mais perigosos estão no congresso nacional, desviando fortunas do dinheiro público. Isso nem é o pior... Eles possuem legitimidade "democrática" para criarem leis. E negociam, através das cegas, surdas e mudas leis do mercado sua capacidade de proteger juridicamente interesses econômicos (quando deveriam estar defendendo interesses sociais). Compra-se leis, elege-se deputados.

Parece óbvio que o poder legislativo brasileiro defende interesses privados. De tão óbvio, me sinto meio ridículo, repetitivo. Será que alguma pessoa razoável poderia dizer que isso não é verdade? Parece óbvio que o congresso nacional representa uma elite, tanto latifundiária, quanto industrial, nacional ou internacional. Uma verdadeira aristocracia, que comanda o país há muito, muito tempo. De diversas maneiras. Parece óbvio que nossa democracia é ridícula.

No Brasil, graças à influência da escola de Exegese (que defende a estrita e literal aplicação das leis) um deputado sendo processado por corrupção, pode renunciar ao seu mandato, para não correr o risco de ser cassado e ficar inelegível por oito anos. Caso não renuncie, antes de ser julgado pela "justiça" (representada aqui pelo poder judiciário), o deputado será julgado pelos seus próprios companheiros, através do voto secreto. É o que a televisão chama (com muito bom humor, diga-se de passagem) de pizza.

Tudo "acabar em pizza" não é, para a grande mídia, um atentado à democracia tão grande quanto o ataque do Movimento de Libertação dos Trabalhadores Sem-Terra, ocorrido ontem. O que é pior?

Numa "democracia" representativa, onde o voto é obrigatório e a grande maioria dos eleitores trocam seu "direito/dever" de votar por uma camiseta, prato de comida, ou algum prazer ainda mais efêmero, a massa sequer lembra do nome do último candidato em que votou. Sequer sabe que as leis devem ser feitas pelo povo e para o povo, através de seus representantes eleitos. Pelo menos em tese...

Num país onde 50 milhões de pessoas são analfabetas, qual é o pior atentado à democracia? Um representante que não representa a população ter a certeza da impunidade ou um grupo que se rebelou contra isso?

Arrisco-me a dizer que o problema maior do nosso país é um problema de interpretação. Talvez um vício. Temos uma constituição que se fundamenta na dignidade da pessoa humana. Esta constituição norteia, delimita, dá sentido, para toda a atividade legislativa, executiva ou judiciária.

As leis devem ser feitas sempre na direção da dignidade da pessoa humana. Mesmo que se tenha que eventualmente optar por tal fundamento em detrimento de outros princípios, como o da livre iniciativa, por exemplo. O sistema só se concretiza se obedecer os caminhos apontados pelos valores que dão sentido, vida, à constituição.

As decisões judiciais podem (e devem!) ignorar leis que obstruam os fins axiológicos eleitos pela carta constitucional. O juiz deve afastar do caso concreto qualquer norma que seja contrária aos valores expressados na nossa constituição. Da mesma forma, devem ser instruídas as atividades do poder executivo.

Uma análise histórica leva ao entendimento de que o Estado liberal, fundamentado principalmente nos valores da Revolução Francesa, tendo a liberdade como centro axiológico, se converteu ao que chamamos de Estado social.

Não é minha opinião. A mudança de paradigmas é praticamente pacífica entre os estudiosos do assunto. Da liberdade (com toda a sua carga axiológica), passamos para a dignidade. Claro que se trata de conceitos abstratos, mas é importante que se compreenda o seu verdadeiro sentido. Não pela simples análise do significado desta palavra, mas pela compreensão dos sentimentos que ela expressa. Das conquistas históricas que ela reflete... Pela compreensão do que sentem as pessoas que não possuem dignidade, que nascem longe disso.

Está na hora de colocarmos as coisas numa balança. No uso da minha liberdade de expressão, aplaudo a brava atitude dos manifestantes, mas sigo com indagações... Quais interesses estaria defendendo a mídia ao condenar veementemente a atitude do MLST e agir com tanta naturalidade diante das absolvições constantes de deputados claramente envolvidos em corrupção? Porque a mídia apoiou tão incondicionalmente a Aracruz no caso das mulheres da via campesina e MST? Porque nem falaram das barbaridades que a Aracruz fez contra os índios do Espírito Santo, destruindo completamente as aldeias das tribos Tupinikin e Guarani? Porque não falaram sobre os enormes danos causados pela monocultura de eucaliptos? Porque? Porque?

Quais são os interesses da mídia? Me pergunto. Ouso perguntar. Quem estaria lutando pela dignidade nesta história toda? Quem teria razão? Mais ainda, o que seria a razão? Existe razão? Seria a razão absoluta, divina, ou uma construção humana? Existe o razoável?
Enfim... Quem sabe deixemos este assunto tão chato pra depois da copa do mundo? Melhor, né... Salve a seleção! Viva o panis et circenses!!! Viva o Hexa!
Porto Alegre, 07 de junho de 2006.