O peso de uma camisa
Faz tempo que o Grêmio não é mais favorito para nada. Uma fria análise lógica levaria qualquer especialista a prever uma crise gigantesca no Monumental após a administração do ex-presidente, Flávio Obino, que culminou no rebaixamento para a segunda divisão do campeonato brasileiro, em 2004.A situação financeira do clube não possibilitaria a contratação de reforços de renome e as verbas recebidas eram cada vez menores. Enfim, estavam presentes quase todos os ingredientes para uma crise sem precedentes. Quase todos... Faltava apenas um: resignação. Nós, gremistas, somos doentes. Criamos uma realidade paralela, onde nada nos abala, nem mesmo uma derrota. Somos obcecados pelo campeonato mundial, título máximo que um time de futebol pode conquistar.
Criamos uma lógica própria, que não admite jamais a resignação. Lutamos sempre por nossas vitórias e também por nossas derrotas. Podemos ganhar ou perder com a mesma reação. O que importa no Olímpico não é mais o resultado, mas a garra presente em cada atleta que veste o nosso glorioso manto imortal.
Ao Grêmio, meus amigos, nenhuma lógica tradicional pode ser aplicada. Nossa paixão inverteu a lógica. Por isso, nossa camisa sempre exigiu respeito por parte dos adversários. Sempre fomos temidos, não só por causa dos nossos jogadores, mas pelo peso do nosso manto imortal.
Sei que isso tudo pode parecer demagogia, mas convenhamos... Será que alguém ainda tem dúvidas sobre a imortalidade do tricolor? Depois daquele desfecho épico no ano passado, nada mais pode nos derrubar. Temos o poder de transformar qualquer diamante em pedra sem valor. E fazer nossas pedras virarem ouro.
Jamais temer: esse é, sem dúvida, o mantra, o lema, o refúgio da nossa torcida. Um time que jamais teme deve estar pronto para vencer ou perder sem, no entanto, nunca perder o amor e a paixão. Deve saber que as derrotas acontecem e, principalmente, que as vitórias também. E acontecem das mais diversas maneiras.
Foi assim no clássico GRENAL que decidiu o gauchão deste ano. Jogávamos contra um time que se proclamava o “todo poderoso”, com seus falsos diamantes de vidro. Um time que está completamente embriagado pela possibilidade de chegar perto de um inédito título internacional, para, ao menos, fazer jus ao nome que ostenta.
Os dois GRENAIS deste campeonato foram marcados pela luta de um time limitado tecnicamente, mas aguerrido e viril, contra um time teoricamente superior que treme as pernas cada vez que ouve falar em decisão. Um time comandado por um especialista em perder decisões contra um time que acredita sempre na sua força, pois já inverteu a lógica do futebol e não mais teme nenhuma derrota. Um grupo de estrelas contra uma estrela de grupo.
Mais uma taça no armário! Como é bom comemorar mais um título, ainda mais quando a taça é levantada na casa do adversário, mediante um esforço extraordinário de nossos guerreiros.
Ao glorioso tricolor, meus sinceros agradecimentos.
Porto Alegre, 10 de abril de 2006.
