27.12.05

Drogas

Não sou nenhum cara erudito. Escrevo pela beleza, pelo prazer. De que adiantaria eu medir forças com pessoas que vivem para os livros, que nasceram para discutir, conjugar e propagar teorias, se tenho minhas próprias idéias efervescendo, em tempo mais do que real? Além do mais, não tenho paciência nem motivação para uma competição deste tipo, pois não acredito em vencedores e vencidos. Meu senso de humor não é inglês.

Vivo num país subdesenvolvido. E mesmo que fosse desenvolvido, o problema não estaria solucionado. Para que hajam vencedores, é necessário que hajam vencidos. Essa é a lógica do nosso mundo, tanto nas favelas quanto na Academia. Vivo num mundo subdesenvolvido. Cheio de ricos pobres.

(Pobres ricos podres, podres pobres ricos!)

Minha humildade se confunde com soberba, mas como nenhuma idéia tem dono... Fico com ambos os títulos. Tenho o benefício da dúvida (estaria eu a defender-me exegeticamente, com base em um princípio egoísta?).

A alienação é geral. O que muda é a natureza do ópio.

Uns se chapam com a banda Kalipso, outros com Beethoven. Uns tomam altas doses de Shakespeare, outros de Diário Gaúcho. Será que somos livres para escolher nossas drogas?

Decidimos entre as possibilidades que temos (ou que acreditamos que temos). Acho que o problema surge nas possibilidades propriamente ditas e é potencializado pela crença. Um exemplo? Neste momento escolho se leio algum livro, vou dormir, vejo televisão... Mas se eu acreditar mesmo vou dar uma volta pela cidade, pelo estado, pelo país. Ou pelo mundo! Se eu quiser, escrevo estas palavras. Minhas condições materiais me dão alguma liberdade imediata, embora seja minha crença o diferencial que pode levar-me à infinitos fins.

Enquanto escolhemos nossas drogas (de ricos ou de pobres) e perdemos nosso tempo discutindo quem tem as melhores idéias, as coisas acontecem. Muita gente encontra-se, neste momento, diante de amargas possibilidades, bem diferentes das minhas. E não adianta essas pessoas acreditarem em coisas mirabolantes, pois o estômago é sincero. Quanta gente está tomando decisões neste momento? Uns dormem, outros estudam, outros escrevem algo.

Muita gente se prostitui, rouba ou discute cinema francês.

Cada um com suas drogas.

14.12.05

O nosso tempo

Cada vez que pensamos, organizamos nossas idéias de uma maneira cronológica, estabelecendo uma seqüência de fatos, de tal maneira que só nos é aceitável porque a vemos de uma forma cíclica. Nos acostumamos a ter um conceito vago e limitado sobre o infinito. O dia começa, o sol nasce, chega o meio-dia, vem a tarde, cai a noite, escurece... Depois começa tudo outra vez. E assim passamos o tempo, assim estamos presos ao tempo. A semana passa de forma contínua, repetindo-se sempre os mesmos sete dias, todos com 24 horas (aproximadamente). Porque, então, que às vezes temos a impressão de que o tempo está passando mais rápido ou devagar? Porque trabalhar uma hora é mais demorado do que descansar?

Todos nós pensamos em viver por muitos anos. Mas dependendo de como estes anos forem vividos, teremos vivido uma “curta” vida longa ou uma “longa” vida curta, dependendo da intensidade com que passamos os momentos que compõe o nosso tempo.

Uma semana pode durar mais do que um mês, e um mês pode passar mais rápido que uma semana. Os anos, para a maioria das pessoas, passam cada vez mais rapidamente, na medida em que crescemos e envelhecemos. O que ocorre é que com o desenvolvimento de determinados conceitos em nossas mentes, nos acostumamos mais e aceitamos a seqüência cíclica de momentos, de modo que estes se tornam apenas continuações de algo que já tenha sido começado, e que não pode, desta maneira, ser inteiramente (ou intensamente) vivido.

O curioso é que temos todos livre acesso à este que é o maior e melhor instrumento da natureza: o tempo. Independentemente da atividade que exerçamos, do dinheiro que tenhamos, das coisas que possuamos, das pessoas que amemos, temos o nosso próprio tempo, que é único, exclusivo e individual!

Temos também a faculdade de controlá-lo da maneira que nos for conveniente, basta acreditarmos em nossas mentes como o nossa maior ferramenta, nossa maior arma.

Não é porque estamos envolvidos com alguma coisa que realmente não gostaríamos de fazer que não podemos aproveitar este tempo. Até mesmo o trabalho mais mecânico e repetitivo pode tornar-se uma coisa agradável... Cada momento deve ser vivido sempre da melhor maneira possível, pois será único. E se abrirmos nossos corações para o melhor que o tempo tem a nos proporcionar, viveremos muito mais de cem ou duzentos anos. Teremos vencido os conceitos cíclicos do tempo, aproveitando-nos do melhor que ele pôde proporcionar-nos.

Os segundos, minutos e horas permanecerão marcando o que sempre entendemos como tempo, mas não precisamos seguir vinculados à estes conceitos. Porém, o fato é que por mais que saibamos dessa verdade, o mundo “real”, o mundo dos ciclos, é demasiado persuasivo e nos faz acreditar em valores e princípios que não pertencem à nossa própria essência.

Tais valores são os artifícios que nos alienam e impedem-nos de viver plenamente, atingir o estágio de evolução e aproveitamento mundano, o qual vulgarmente chamaríamos de felicidade.

Somente estaremos prontos para receber tudo o que temos de melhor, uns para com os outros, quando valorizarmos mais intensamente os momentos, as pequenas decisões que subsidiam as nossas grandes atitudes.

Um problema só poderá ser assim chamado porque para ele existe uma solução. Nesse caso, buscaremos o melhor caminho para resolve-lo. Caso não exista uma solução, não existirá problema, logo temos de aceita-lo como fato, da maneira mais natural e razoável.

É certo que nossa maior busca como seres humanos é e sempre será atingir um estado de serenidade mental, auto-conhecimento e, principalmente, aceitação. E que, para tanto, devemos abrir mão de alguns de nossos valores usuais. Dificilmente aceitaríamos passiva e serenamente uma doença em nossa família. Ficaríamos remoídos por um sentimento de indignação e injustiça tão forte, que chegaríamos ao ponto de sentirmos raiva de tudo o que nos cerca. E que isso somente traria mais dor e sofrimento, e ainda, geraria uma propensão à acontecimentos ruins, através de uma canalização de pensamentos e energias em determinado sentido que vai ao encontro de nossos objetivos de paz interior.

Por isso, é imperativo que não deixemos acumular questões mal resolvidas em nossas vidas. Nosso dia é composto por infinitos momentos, que numa noção cronológica se passam dentro de vinte e quatro horas. Dentro desse conceito, imaginemos quantas são (em quantidade e importância) as pequenas decisões que temos que tomar no decorrer de um dia. Cada movimento que fazemos com nossos corpos é resultado de uma decisão. Cada palavra que falamos também é resultado de uma (ou uma seqüência) de eleições, como certo e errado, sim ou não, ser ou estar...

Para que possamos desfrutar de o que nossas vidas têm de melhor a proporcionar, para que aproveitemos nosso tempo em cada momento, e para que atinjamos tal nível de espiritualidade onde sejamos pessoas puras e prontas umas para as outras, é decisivo que tenhamos tomado as pequenas decisões corretamente e que valorizemos os detalhes da vida. Mais do que isso, que possamos enxergar a beleza das coisas escondidas em pequenos momentos, em coisas singulares e ordinárias, na simplicidade de conseguirmos “ser” ao invés de “estar”, sem, no entanto, preocuparmo-nos com a diferença. Que tenhamos sabedoria para discernir o que pode ser resolvido do que não pode, bem como a maneira ideal para resolvermos cada situação com a qual deparar-nos no decorrer de nossas existências.

Que tenhamos sempre a serenidade para aceitar a natureza das coisas, da maneira em que melhor possamos desfruta-las, de modo harmônico, sempre em benefício de um todo, buscando um equilíbrio que é maior que qualquer coisa que se possa imaginar, maior que todas as nossas noções viciadas, simplesmente algo que não poderemos compreender de outro modo senão do abstrato, o que é, por natureza, o desafiador.

Da mesma forma que não conseguimos sequer compreender o tempo, muito menos a natureza, seria um tanto quanto pretensioso querer compreender, de um modo matemático, a humanidade, uma vez que até mesmo nossas próprias mentes são, para nós mesmos, como campos desconhecidos, os quais poderíamos passar toda uma existência desbravando, que, mesmo assim, não conheceríamos sequer o suficiente para prestar informações à alguém que nele estivesse perdido.

“To be continued...”

Paulo Renato Vitória, abril de 2003.