Grêmio Copeiro!
O final do ano se aproxima em alta velocidade e eu me sinto cada vez mais despreparado para a sua chegada. Preciso escrever muitas coisas e não consigo. Não sei qual é o problema, mas o fato é que estou passando por uma dificuldade de expressar por escrito minhas idéias. Talvez não esteja assim tão seguro delas mesmo. Ou então, me falta atitude, motivo pelo qual sento diante do computador mais uma vez, em busca de um momento (por mais breve que seja) de inspiração. Talvez seja como desenrolar um nó górdio, onde o primeiro passo seria encontrar a ponta do fio, para começar a desemaranhar o novelo inteiro. Nesse intuito, creio que convém começar falando um pouco sobre o meu time, que é um dos assuntos que mais detém minhas idéias ultimamente. Ademais, temos – eu e o tricolor – muitas características em comum mesmo.Como sabemos, o Grêmio passa por um momento muito delicado no Campeonato Brasileiro, pois precisa vencer ainda duas partidas, entre três, para garantir o retorno à “série A”. Acho que, para nós gremistas, as coisas sempre acontecem com mais emoção. Estamos sempre nos aventurando perto do tênue limite entre a glória e o fracasso, entre o sucesso e a sarjeta. É na sarjeta, aliás, que passamos os últimos tempos e provavelmente passaríamos os próximos dez anos se não fôssemos extremistas. De que adiantaria termos nos livrado do rebaixamento se nosso clube estava todo desorganizado. De que adiantaria passar mais dez anos sem cair para a segunda divisão nem ganhar mais um campeonato mundial? O tratamento de choque é a única maneira de fazer com que meu time se encontre. No final de semana passado, por exemplo, estávamos muito perto de conseguir uma importante vitória fora de casa, mas não deu. Perderia a graça.
Como bom gremista, tenho que admitir que também “funciono” da mesma maneira. Inclusive, ganhei o debochado apelido de “Sr. Última Hora” na faculdade, por causa dos meus trabalhos entregues para o professor “aos 48 minutos do segundo tempo”, em “condição duvidosa”, mas sempre com muita raça. Tais trabalhos realmente eram chatos de se fazer e acho que não teria paciência para fazê-los novamente. Aliás, a maioria dos trabalhos acadêmicos são baseados em métodos que não valorizam o pensamento. Lê-se uma pilha de livros tolos, recheados de palavras difíceis, com páginas e mais páginas dedicadas à fundamentação de idéias tão óbvias que poderiam ser sintetizadas em menos de meia página. Não que eu seja contra a argumentação... Mas por favor!
Enquanto, em tempos atuais, fala-se muito em “ética do discurso”, “auditório universal” e outros tantos termos “filosóficos” que buscam colocar a palavra como fator gerador de consensos e de resolução de conflitos, tais teorias e discussões dificilmente saem dos corredores das universidades, onde, na verdade, o que se vê é uma batalha individualista de todos os membros da Academia por um “lugar ao sol”. Uma espécie de corporativismo intelectual. A grande maioria vê-se obrigada a abdicar do direito de pensar livremente sobre o que quiser, para que possa adaptar-se às linhas de pesquisa oferecidas pelas universidades, que, por sua vez, são desenvolvidas por professores que também tiveram de seguir as “linhas” vigentes no momento de seu ingresso. O acesso às idéias propriamente ditas acaba ficando restrito aos poucos que possuem paciência e ambição suficientes para passar horas e horas lendo textos feitos especialmente para dificultar a vida do leitor. Feitos para que o leitor veja (e sinta) como o “verdadeiro conhecimento” é difícil de ser adquirido. É como os famosos “trotes” que um jovem soldado recebe de seus superiores. Na primeira oportunidade de ascensão hierárquica, o ex-soldado raso (agora “veterano”) dará aos seus inferiores tratamento semelhante ao por ele recebido. É como um círculo-vicioso. Para ser respeitado, tenho que escrever textos pesados e eruditos. Porque não se escreve filosofia com maior liberdade e sensibilidade? Quem é o dono da filosofia?
O que seria o “conhecimento verdadeiro”, afinal? Será que é preciso ler quinhentas páginas de um livro chatíssimo para entender uma idéia que eu sou capaz de ter sozinho? E para que tanta complicação, senão para monopolizar o poder intelectual? Muitas vezes acabo sendo ridicularizado por ainda acreditar em uma popularização do conhecimento (que não é um bicho-de-sete-cabeças), porque acho que qualquer pessoa pode entender as idéias de um jurista ou filósofo, desde que tal idéia seja traduzida para um português simples e de fácil compreensão. Na minha opinião, o que existe é um certo medo acadêmico de se tratar questões tão complicadas (serão mesmo?!) com pessoas despreparadas ou mal instruídas. Preserva-se a filosofia, para que a mesma não seja banalizada por qualquer um. “A filosofia é uma construção penosa e trabalhosa”. “Não é justo que os estudantes passem cinco horas por dia lendo Kant para um “Zé Ninguém” qualquer vir dizer que não acredita no Imperativo Categórico” (?!). Parece bem razoável que alguém que leu a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, inteira vai, mesmo que inconscientemente, defendê-la como quem defende a si próprio. Há também aqueles que já a lêem com o intuito de criticá-la consistentemente. Em ambos os casos, a preocupação do leitor em dividir seu conhecimento é secundária, posto que sua dissertação/tese é o mais importante. Não que as questões filosóficas tradicionais não sejam, realmente, importantes, por favor! Mas pensemo-las também com nossas próprias cabeças, hoje! E vamos tratar de dividir nosso conhecimento, trocá-lo.
Já expliquei, por exemplo, algumas idéias que mesmo muitos colegas de faculdade não conhecem, sobre direito, política, física ou filosofia, para pessoas que sequer completaram o primeiro grau (e tenho certeza de que fui muito bem compreendido). Assim como já pude aprender muitas coisas com pessoas mais simples. Basta que se tenha clareza e não se perca em argumentações inúteis. Não que eu me considere melhor do que meus colegas. Muito pelo contrário, acho que, academicamente, tenho muito mais a aprender com eles do que eles comigo. Mas enfim, qualquer outro ser também tem muito a me ensinar. E muitas vezes os ensinamentos de uma pessoa mais simples são de maior utilidade prática do que os provenientes de um douto intelectual. Tenho consciência de que posso trocar com todas as pessoas, dando a elas um pouco de minhas idéias em troca das delas.
Em que pese o protecionismo de seu conhecimento, vejo que quase todos os membros da Academia possuem uma invejável compreensão, mesmo que teórica, da situação atual do nosso país, o que não significa que façam algo para mudá-la. Todos querem publicar seus artigos em revistas especializadas, de preferência norte-americanas, pois “é lá que os melhores estão”. Fico pensando se todos pudessem entender como funciona o Estado Democrático de Direito, como a distribuição da propriedade no país é injusta, e como nós somos manipulados e adestrados, tal como animais, por uma rede de televisão privada, talvez o problema filosófico da liberdade ganhasse novos sentidos. Não só na Academia, mas nas ruas. Será que sabemos o que é liberdade? Somos livres para saber isso?
A maioria das pessoas (mesmo muitos advogados, filósofos e estudantes em geral) acredita que o direito é apenas o que está na lei. Como seria se a população ficasse, repentinamente, sabendo que a Constituição é a lei superior à todas as outras e que ela elegeu o princípio da dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito brasileiro? Será que alguma lei inferior poderia contrariá-lo? Como seria se as pessoas ficassem sabendo que o direito positivo é positivamente submisso a uma série de princípios, que dão vida à nossa Constituição?
Minha dificuldade em escrever para a Academia está, em certa medida, concentrada na minha carência de vocabulário filosófico. Me faltam subsídios intelectuais que são pré-requisitos para uma linguagem que pelo menos aparente alguma erudição. Se eu estivesse aqui tratando, por exemplo, da “democracia em Habermas”, com base em leituras, citações, comentários e ambigüidades intermináveis, mesmo que estivesse fazendo um bom trabalho, me sentiria um tanto quanto violado e oprimido, por não poder expressar minha opinião sobre assuntos aos quais o Habermas me remete e eu não consigo ignorar. Mas reconheço que tenho que fazê-lo, e logo!
Atualmente, seguindo minha analogia futebolística, estou fazendo uma campanha mediana num campeonato bastante competitivo, passando por perto da tão temida “zona de rebaixamento”. Mas cabe lembrar que o campeonato que estou disputando não é por pontos corridos, de modo que ainda posso ser campeão, apesar das dificuldades. É nisso que eu tenho que acreditar, sempre! O fim de ano, que se apresenta como uma avalanche, promete bastante, pois por mais que meu "elenco" esteja longe de ser considerado como “galáctico”, eu, assim como o Grêmio, me agiganto é nos momentos decisivos. O jogo contra o poderoso time do Habermas é decisivo e será encarado como tal. Sei que vai ser uma peleia dura, mas não o temerei, jamais!
Porto Alegre, 7 de novembro de 2005.
Paulo

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home