24.11.05

A batalha dos Aflitos

Yo soy toro em mi rodeo
y torazo em rodeo ajeno;
siempre me tuve por güeno
y si me quierem probar
salgan otros a cantar
y veremos quién es menos
”.
(Martín Fierro, de José Hernandez)

Escrevo este texto à todos aqueles que acompanharam, seja torcendo, seja secando, o Grêmio Football Portoalegrense em sua árdua trajetória ao longo das últimas temporadas, que veio a culminar nesta tensa semana de maravilhosas angústias, à espera da batalha final: a batalha dos Aflitos. Como é bom estarmos às vésperas de uma decisão! Um clube que já foi campeão do mundo, bi-campeão da Libertadores, quem diria, lutando com todas as forças para poder voltar à “elite” do futebol brasileiro... Mas o que seria a verdadeira “elite”? Será que estar na primeira divisão é pertencer à elite?

Juro que prefiro estar decidindo uma segunda divisão a disputar um campeonato morno, onde apenas dois ou três times têm chances de conquistarem o título. Hoje, Grêmio, Santa Cruz, Náutico e Portuguesa são muito mais “elite” do que noventa por cento dos clubes da série A. Ademais, a fórmula da série A é muito chata. Dificilmente seremos campeões em um campeonato de pontos corridos.

A tensão desta eletrizante segundona é tão grande, que não durmo direito nenhuma noite desde que o quadrangular final começou. Já sonhei que o jogo contra o Santa Cruz havia começado e eu não conseguia chegar ao Monumental... Que o Márcio Rezende veio apitar o jogo do Grêmio para compensar o que fez para o Inter... Essas coisas de quem está respirando ares futebolísticos vinte e quatro horas por dia, lutando contra a aflição.

Divergindo da maioria da torcida gremista, que acha que o Grêmio nunca deveria ter caído para a segunda divisão, penso que a queda para a série B foi de grande importância para a nossa história, para o nosso futuro. O rebaixamento significou um cutucão no nosso orgulho. A força com que nossa torcida empurrou o tricolor até o final do campeonato foi, sem dúvida, uma das maiores demonstrações de grandeza de um clube de futebol nos últimos tempos. Cheguei a quebrar um dedo numa das avalanches do último jogo, tamanha fora sua força! Nossa torcida mostrou ao Brasil inteiro, mais uma vez, como se deve encarar um momento difícil. Mostramos a todos porque somos guerreiros, porque somos farrapos.

Somos farrapos porque nosso plantel segue extremamente limitado, porque saímos dos holofotes da imprensa “global” e da primeira divisão e nem por isso deixamos de lotar o Monumental para ver nosso time jogar, com todas as suas limitações, honrando o sagrado manto tricolor com muita raça. Somos farrapos porque disputamos um campeonato sério, honesto e muito competitivo, contra times humildes, de todas as partes do país, em busca de um lugar ao sol. Nunca tivemos tanta força para lutar! Nossa garra está compensando a falta de qualidade técnica, mais uma vez. Nossa paixão ignora completamente a natureza da competição. Queremos vencer, precisamos vencer! Nada mais importa!

Nesse clima de decisão e de aflição, o povo nordestino está prometendo uma verdadeira guerra contra nós, gaúchos, e contra os paulistanos da Portuguesa, em duas batalhas simultâneas: a dos Aflitos e a do Arrudão. A nossa, curiosamente, é a dos Aflitos. Se não vencermos tal batalha nem subirmos para a primeira divisão neste sábado, seguirei amando e acompanhando meu Grêmio, onde ele estiver! Ganhando ou perdendo, chorando ou sorrindo... Além do mais, a segundona não foi tão ruim assim para nós, que realmente amamos o Grêmio e vamos ao estádio em todas as partidas. Não tenho mais medo da segunda divisão!

Todavia, se vencermos o clássico GRE-NAU deste sábado, a batalha dos Aflitos, a festa aqui em Porto Alegre será tão grande, mas tão grande... Falam até em feriado municipal... Estaremos conquistando o inédito título de campeões brasileiros da série B, o que seria, sem dúvida, a maior demonstração de grandeza da nossa história. Me arrisco a dizer que a batalha dos Aflitos é a mais importante de toda a história do Grêmio. Seria a glória!

Força Grêmio!