28.11.05

Lara, o craque imortal...

Depois de tudo o que já se falou, tudo o que já se escreveu, fica meio difícil ter alguma coisa nova a declarar sobre o que aconteceu sábado em Recife, na - agora mundialmente famosa – “Batalha dos Aflitos”... Difícil porque até aqueles gremistas que nunca foram no Monumental, ou mesmo torcedores de outros clubes já falaram, gritaram, cantaram, escreveram ou comentaram quase tudo o que se podia sobre o ocorrido...

O que dizer então? Eu que fui em todos os jogos do Grêmio em casa e assisti a todos fora, certamente teria algum comentário, alguma observação inédita a fazer... Mas não tenho. Acho, inclusive, que tudo o que se está a falar é mentira, fruto de uma grande alucinação criada pelo inconsciente coletivo. Devido à grandeza do Grêmio, à sua história de pelejas indescritíveis pelo mundo afora, o país inteiro se recusou a acreditar que fosse acontecer um desfecho tão dramático e propagou uma onda de pensamento tão forte, mas tão forte, que acabamos criando um epílogo imaginário à altura da tradição deste clube de futebol que hoje estamos a contemplar. Um final tão surpreendente que nem mesmo o mais otimista dos torcedores poderia acreditar. Daqueles que o escritor mais cara-de-pau não teria coragem de dar para seu conto, seu romance.

Tipo aqueles filmes de final surpreendente. Daqueles que chega a dar até raiva do diretor, que faz todos de palhaço durante o filme inteiro... Pois é, por mais que o jogo do Grêmio fosse um filme e me fosse contado o final antecipadamente, eu dificilmente acreditaria. Não tem como acreditar! Pensem só: seis na linha e um no gol, na casa do adversário, lotada. O adversário precisando de apenas um gol para voltar para a primeira divisão, depois de onze anos de amarguras. O jogo mais importante da história do Náutico.

Um pênalti contra, um juiz prometido, uma polícia violenta. Uma taça sendo erguida pelo Santa Cruz. Pernambuco em festa. Uma corrente vermelha aguardando o chute, aos sessenta minutos do segundo tempo. Uma história recente de escândalos no futebol, dentro e fora dos gramados. Um manto sagrado em campo.

Em todos os momentos decisivos, o manto tricolor é o maior refúgio da torcida gremista. Nada pode ser maior, nem mais sagrado! Um alento para qualquer coração aflito. Um porto seguro para qualquer preocupação, qualquer hesitação. Nada pode ser maior!

Lara, o craque imortal, não pôde de tanta emoção. Ele saiu de onde estava e invadiu o corpo do Galato. Isso mesmo! Lara encarnou no Galato, acreditem ou não! Lara pegou o pênalti!

O jornal inglês Times chegou a chamar o Grêmio de “Fight Club” (se referindo ao filme Clube da Luta). Parece que eles sabem que enquanto estiver em campo o manto tricolor, a esperança existe! Quem veste essa camisa, sua sangue, transpira garra e exala paixão! Somos assim, diferentes. Nossa torcida é diferente, nosso time também. Nunca desistimos. Nunca nos entregamos. Nunca colocaremos narizinho de palhaço.

Estou quase acreditando no que aconteceu. Se for verdade, acho que a direção do Grêmio deveria mandar bordar mais uma estrela na camiseta, de cor azul celeste, simbolizando a maior batalha da nossa história.

Obrigado Grêmio!

24.11.05

A batalha dos Aflitos

Yo soy toro em mi rodeo
y torazo em rodeo ajeno;
siempre me tuve por güeno
y si me quierem probar
salgan otros a cantar
y veremos quién es menos
”.
(Martín Fierro, de José Hernandez)

Escrevo este texto à todos aqueles que acompanharam, seja torcendo, seja secando, o Grêmio Football Portoalegrense em sua árdua trajetória ao longo das últimas temporadas, que veio a culminar nesta tensa semana de maravilhosas angústias, à espera da batalha final: a batalha dos Aflitos. Como é bom estarmos às vésperas de uma decisão! Um clube que já foi campeão do mundo, bi-campeão da Libertadores, quem diria, lutando com todas as forças para poder voltar à “elite” do futebol brasileiro... Mas o que seria a verdadeira “elite”? Será que estar na primeira divisão é pertencer à elite?

Juro que prefiro estar decidindo uma segunda divisão a disputar um campeonato morno, onde apenas dois ou três times têm chances de conquistarem o título. Hoje, Grêmio, Santa Cruz, Náutico e Portuguesa são muito mais “elite” do que noventa por cento dos clubes da série A. Ademais, a fórmula da série A é muito chata. Dificilmente seremos campeões em um campeonato de pontos corridos.

A tensão desta eletrizante segundona é tão grande, que não durmo direito nenhuma noite desde que o quadrangular final começou. Já sonhei que o jogo contra o Santa Cruz havia começado e eu não conseguia chegar ao Monumental... Que o Márcio Rezende veio apitar o jogo do Grêmio para compensar o que fez para o Inter... Essas coisas de quem está respirando ares futebolísticos vinte e quatro horas por dia, lutando contra a aflição.

Divergindo da maioria da torcida gremista, que acha que o Grêmio nunca deveria ter caído para a segunda divisão, penso que a queda para a série B foi de grande importância para a nossa história, para o nosso futuro. O rebaixamento significou um cutucão no nosso orgulho. A força com que nossa torcida empurrou o tricolor até o final do campeonato foi, sem dúvida, uma das maiores demonstrações de grandeza de um clube de futebol nos últimos tempos. Cheguei a quebrar um dedo numa das avalanches do último jogo, tamanha fora sua força! Nossa torcida mostrou ao Brasil inteiro, mais uma vez, como se deve encarar um momento difícil. Mostramos a todos porque somos guerreiros, porque somos farrapos.

Somos farrapos porque nosso plantel segue extremamente limitado, porque saímos dos holofotes da imprensa “global” e da primeira divisão e nem por isso deixamos de lotar o Monumental para ver nosso time jogar, com todas as suas limitações, honrando o sagrado manto tricolor com muita raça. Somos farrapos porque disputamos um campeonato sério, honesto e muito competitivo, contra times humildes, de todas as partes do país, em busca de um lugar ao sol. Nunca tivemos tanta força para lutar! Nossa garra está compensando a falta de qualidade técnica, mais uma vez. Nossa paixão ignora completamente a natureza da competição. Queremos vencer, precisamos vencer! Nada mais importa!

Nesse clima de decisão e de aflição, o povo nordestino está prometendo uma verdadeira guerra contra nós, gaúchos, e contra os paulistanos da Portuguesa, em duas batalhas simultâneas: a dos Aflitos e a do Arrudão. A nossa, curiosamente, é a dos Aflitos. Se não vencermos tal batalha nem subirmos para a primeira divisão neste sábado, seguirei amando e acompanhando meu Grêmio, onde ele estiver! Ganhando ou perdendo, chorando ou sorrindo... Além do mais, a segundona não foi tão ruim assim para nós, que realmente amamos o Grêmio e vamos ao estádio em todas as partidas. Não tenho mais medo da segunda divisão!

Todavia, se vencermos o clássico GRE-NAU deste sábado, a batalha dos Aflitos, a festa aqui em Porto Alegre será tão grande, mas tão grande... Falam até em feriado municipal... Estaremos conquistando o inédito título de campeões brasileiros da série B, o que seria, sem dúvida, a maior demonstração de grandeza da nossa história. Me arrisco a dizer que a batalha dos Aflitos é a mais importante de toda a história do Grêmio. Seria a glória!

Força Grêmio!

12.11.05

Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito

Há muito tempo, ando observando todas as coisas à minha volta com uma maior atenção, com uma inevitável reflexão acerca de tudo o que acontece ao meu redor. Talvez seja apenas reflexo do momento que estou vivendo, cheio de questionamentos e descobertas. Não que eu não fosse extremamente crítico desde criança, mas é notável que nos últimos tempos tenho pensado demais, e meus choques estão sendo cada vez maiores, na medida em que desenvolvo meus pensamentos, os quais, quase sempre chegam ao mesmo ponto: o desânimo e a descrença.

Tive, na tarde de ontem, uma experiência que quase todos os cidadãos, pelo menos uma vez na vida, são obrigados a ter: o contato direto com o Poder Judiciário. Claro que, no meu caso, uma vez que sou formado em direito, a sala de audiências não é nenhum território desconhecido. Já devo ter presenciado umas vinte audiências durante minha faculdade. Algumas vezes, inclusive, como parte.

No caso de ontem, estava ajudando meu padrasto com uma ação de cobrança de alugueis contra o ex-inquilino de um de seus imóveis. Conhecido como pessoa extremamente generosa, meu padrasto somente resolveu entrar com tal ação porque o locatário separou-se, deixando sua ex-esposa e filha pequena no imóvel, para viver sua vida, sem prestar-lhes nenhum auxílio, deixando os aluguéis atrasados acumularem como uma bola de neve.

Disse meu padrasto, inclusive, que doaria quaisquer valores recebidos no processo para uma instituição de caridade, deixando bem clara a sua sede pela justiça, não no sentido financeiro, como estamos acostumados a ver, mas no sentido moral. Queria ele, de certa forma, e por motivos pessoais, punir aquele que deu as costas à ex-esposa e filha. Tinha razão para ganhar o processo. O imóvel estava locado e os aluguéis não estavam sendo pagos. Tinha provas suficientes. Nem precisaria doar o dinheiro oriundo da cobrança, pois estava clara no processo a inadimplência do “réu”. Gastou, ainda, cerca de quatrocentos reais, entre custas e despesas processuais, com o único propósito de punir a conduta moral de seu ex-locatário.

Foi designada audiência, pelo excelentíssimo e distinto senhor doutor juiz de direito da comarca responsável. Como não tenho a carteira da OAB, levei um amigo advogado para representar oficialmente “meu cliente”.

Iniciada a cerimônia, com o pregão realizado nos corredores do foro, onde outros “litigantes” aguardavam a sua vez, as partes, munidas de seus respectivos advogados, entraram no templo sagrado do Poder Judiciário, onde o nobre magistrado os aguardava, com toda a sua arrogância.

Havia, como de praxe, uma mesa mais alta, semelhante a um pódio de competições esportivas, onde o local mais alto é ocupado pelo digníssimo doutor juiz e os laterais, que seriam para o segundo e terceiro lugares, porém ambos da mesma altura, são ocupados pelo estenotipista e pelo oficial ajudante (por vezes um estagiário). Diante do pódio, porém no nível do chão, havia uma mesa com duas cadeiras de cada lado, no sentido vertical com relação ao pódio, diante deste.

Tradicionalmente (não me perguntem por que motivo), a cerimônia é realizada com o advogado da parte autora, acompanhado de seu cliente, sentados do lado direito do excelso juiz e o réu e seu procurador, no lado esquerdo. Todavia, o sábio magistrado que conduzia a audiência fez questão, inclusive, de fazer as partes trocarem de lugar com seus advogados, uma vez que o local mais próximo ao pódio deve ser ocupado pelo advogado, e não pelo cidadão. Imaginei, entretanto, que tal mesa seria como uma extensão do pódio e o local reservado para as pessoas comuns seria o mais baixo de todos. O mais afastado do topo. Principalmente o ocupado pelo réu, pela sua possível situação de desconforto por estar sendo processado, do lado esquerdo.

Primeiramente, o advogado do réu ofereceu, como proposta de conciliação, oitocentos reais, o que foi negado pelo meu padrasto, que queria a condenação integral, que perfaz cerca de dois mil reais. Apesar de ele já haver declarado que doará tal valor, seu íntimo desejo de justiça o disse para ir até as últimas conseqüências na punição integral do réu.

Depois, colhido o depoimento do meu padrasto, que pediu para fazer algumas considerações importantes, sobre questões que não foram levantadas pelo magnânime juiz. Sua resposta foi a seguinte: “Não”. Fiquei me perguntando: porque não? Se ele havia dito que seria importante... Será que é apenas o juiz que decide o que é importante?

Enfim, meu amigo advogado fez uma pergunta para meu padrasto, para que ele pudesse fazer suas “considerações importantes”, e, quando ele estava começando a responder, o juiz disse para parar tudo, pois as perguntas deveriam ser dirigidas à pessoa do juiz, que, por sua vez, as repetiria ao meu padrasto. Confuso, meu colega seguiu perguntando ao meu padrasto diretamente (até porque a pergunta era para ele), motivo pelo qual sua atenção foi chamada inúmeras vezes pelo excelentíssimo senhor doutor juiz, que parava a cerimônia com uma crescente irritação e arrogância, toda vez que uma pergunta era feita sem seu intermédio, semelhante à um professor primário, chamando a atenção de seus alunos.

Sentado ao meu lado, com um livro do Platão à tira-colo, estava o estagiário do advogado réu, que devia ter uns trinta e poucos anos e, a exemplo do que acontecia comigo, sabia mais sobre o processo do que o advogado “oficial”. Ele tinha previamente formulado perguntas para as partes e testemunhas e pediu ao juiz para fazê-las, identificando-se como estagiário de direito. O juiz respondeu que não. Na sala “dele”, estagiário não pode falar nada oficialmente, mas pode passar as perguntas para que o advogado as faça.

A situação se tornou bastante ridícula: O estagiário fazia as perguntas ao advogado, em voz alta. O advogado repetia as perguntas ao juiz. O juiz, por fim, repetia as perguntas às testemunhas, sendo que estas escutavam a pergunta desde a sua formulação inicial, pelo estagiário. Patético. Como se não houvesse mais nada para fazermos senão alternarmos brincadeiras infantis, ora chefe-manda, ora telefone-sem-fio, na sala de audiências. Como se não houvesse milhares de processos para serem julgados, milhares de pessoas em busca de justiça, tendo que aguardar anos para que decisões simples sejam tomadas.

Uma pena estarmos perdidos em meio a um formalismo exacerbado que enaltece a figura de um cidadão prepotente, arrogante e ridículo que ocupa o mais alto lugar no pódio da justiça.

Foi chamada a ex-esposa do réu para prestar seu depoimento, o qual, formalmente, não serve de testemunho por se tratar de pessoa que possui relação direta com uma das partes. Figura ela no processo como mera informante, nos termos da legislação vigente. Ela foi confusa e declarou que não deve nada ao meu padrasto, provavelmente ameaçada pelo ex-esposo de que teria ela que pagar a dívida, caso perdessem a ação. Mentiu, também, que tem uma amiga, a qual testemunhou seus pagamentos ao meu padrasto, que teria, supostamente, negado recibos a ela.

A amiga, por sua vez, curiosamente não pode comparecer à audiência e foi pedido para que fosse marcada uma nova data, para sua oitiva. Desta forma, foi designada nova audiência, para março do próximo ano, apenas para que se ouça como testemunha uma pessoa que nunca viu meu padrasto, que irá até o Poder Judiciário prestar seu falso testemunho, uma vez que a nossa justiça admite.

Não adiantaria nada falarmos isso ao juiz, pois, primeiramente, não tínhamos permissão para falar nada que o chefe não mandasse. Em segundo lugar, ele poderia não acreditar.

Assim, teremos de aguardar mais cinco meses para podermos começar a esperar uma sentença, que pode demorar mais bastante tempo. Na melhor das hipóteses, teremos uma decisão de primeiro grau no final do ano que nem começou ainda, mais de dois anos depois da propositura da ação.

Fiquei me perguntando algumas coisas do tipo: será que o juiz pode acabar com esse burro formalismo legal? Vou dar duas respostas: uma na qualidade de jurista e outra na de cidadão: Minha resposta como jurista é a seguinte: Sim, e por meio da própria lei. Acontece que no núcleo do sistema jurídico brasileiro existe uma constituição. Essa constituição é maior do que todas as demais leis e está baseada em princípios, entre os quais, recentemente implantado expressamente o direito à celeridade processual. Mesmo que não estivesse expresso, haveria um princípio estruturante do Estado Democrático de direito, que é o da dignidade da pessoa humana, que o abarcaria, sem dúvida.

Minha resposta de cidadão também foi positiva, mas por outro fundamento, simples e do alcance de todos: bom-senso. Não só para decidir o processo na audiência, o que muitas vezes seria perfeitamente possível, mas para acabar com a cerimônia ridícula que gera uma enorme perda de tempo e afasta as pessoas “comuns” da esfera pública, tornando-as meros coadjuvantes de uma história onde deveriam atuar como protagonistas.

Na realidade, as duas respostas se complementam. A do jurista e a do cidadão. Afinal de contas, a justiça é feita por quem e para quem? Não seria por e para o legítimo dono do poder, que é o povo? O jurista ou o cidadão? Não seriam os dois igualmente membros do que chamamos de povo? Será possível que ainda, em uma democracia, existam os “donos da justiça”?

O excelentíssimo senhor doutor juiz de direito e todo o seu poder simbólico precisam, urgentemente, ser eliminados da nossa vida! Comecemos pelo vocabulário. Falemos o português dos 50 milhões de analfabetos! Falemos o português dos milhões de desempregados ou dos oitenta por cento da população brasileira que vive abaixo da linha de pobreza! Precisamos é de justiça feita pelo povo e para o povo e não desses semi-deuses arrogantes, como o que conheci ontem.

7.11.05

Grêmio Copeiro!

O final do ano se aproxima em alta velocidade e eu me sinto cada vez mais despreparado para a sua chegada. Preciso escrever muitas coisas e não consigo. Não sei qual é o problema, mas o fato é que estou passando por uma dificuldade de expressar por escrito minhas idéias. Talvez não esteja assim tão seguro delas mesmo. Ou então, me falta atitude, motivo pelo qual sento diante do computador mais uma vez, em busca de um momento (por mais breve que seja) de inspiração. Talvez seja como desenrolar um nó górdio, onde o primeiro passo seria encontrar a ponta do fio, para começar a desemaranhar o novelo inteiro. Nesse intuito, creio que convém começar falando um pouco sobre o meu time, que é um dos assuntos que mais detém minhas idéias ultimamente. Ademais, temos – eu e o tricolor – muitas características em comum mesmo.

Como sabemos, o Grêmio passa por um momento muito delicado no Campeonato Brasileiro, pois precisa vencer ainda duas partidas, entre três, para garantir o retorno à “série A”. Acho que, para nós gremistas, as coisas sempre acontecem com mais emoção. Estamos sempre nos aventurando perto do tênue limite entre a glória e o fracasso, entre o sucesso e a sarjeta. É na sarjeta, aliás, que passamos os últimos tempos e provavelmente passaríamos os próximos dez anos se não fôssemos extremistas. De que adiantaria termos nos livrado do rebaixamento se nosso clube estava todo desorganizado. De que adiantaria passar mais dez anos sem cair para a segunda divisão nem ganhar mais um campeonato mundial? O tratamento de choque é a única maneira de fazer com que meu time se encontre. No final de semana passado, por exemplo, estávamos muito perto de conseguir uma importante vitória fora de casa, mas não deu. Perderia a graça.

Como bom gremista, tenho que admitir que também “funciono” da mesma maneira. Inclusive, ganhei o debochado apelido de “Sr. Última Hora” na faculdade, por causa dos meus trabalhos entregues para o professor “aos 48 minutos do segundo tempo”, em “condição duvidosa”, mas sempre com muita raça. Tais trabalhos realmente eram chatos de se fazer e acho que não teria paciência para fazê-los novamente. Aliás, a maioria dos trabalhos acadêmicos são baseados em métodos que não valorizam o pensamento. Lê-se uma pilha de livros tolos, recheados de palavras difíceis, com páginas e mais páginas dedicadas à fundamentação de idéias tão óbvias que poderiam ser sintetizadas em menos de meia página. Não que eu seja contra a argumentação... Mas por favor!

Enquanto, em tempos atuais, fala-se muito em “ética do discurso”, “auditório universal” e outros tantos termos “filosóficos” que buscam colocar a palavra como fator gerador de consensos e de resolução de conflitos, tais teorias e discussões dificilmente saem dos corredores das universidades, onde, na verdade, o que se vê é uma batalha individualista de todos os membros da Academia por um “lugar ao sol”. Uma espécie de corporativismo intelectual. A grande maioria vê-se obrigada a abdicar do direito de pensar livremente sobre o que quiser, para que possa adaptar-se às linhas de pesquisa oferecidas pelas universidades, que, por sua vez, são desenvolvidas por professores que também tiveram de seguir as “linhas” vigentes no momento de seu ingresso. O acesso às idéias propriamente ditas acaba ficando restrito aos poucos que possuem paciência e ambição suficientes para passar horas e horas lendo textos feitos especialmente para dificultar a vida do leitor. Feitos para que o leitor veja (e sinta) como o “verdadeiro conhecimento” é difícil de ser adquirido. É como os famosos “trotes” que um jovem soldado recebe de seus superiores. Na primeira oportunidade de ascensão hierárquica, o ex-soldado raso (agora “veterano”) dará aos seus inferiores tratamento semelhante ao por ele recebido. É como um círculo-vicioso. Para ser respeitado, tenho que escrever textos pesados e eruditos. Porque não se escreve filosofia com maior liberdade e sensibilidade? Quem é o dono da filosofia?

O que seria o “conhecimento verdadeiro”, afinal? Será que é preciso ler quinhentas páginas de um livro chatíssimo para entender uma idéia que eu sou capaz de ter sozinho? E para que tanta complicação, senão para monopolizar o poder intelectual? Muitas vezes acabo sendo ridicularizado por ainda acreditar em uma popularização do conhecimento (que não é um bicho-de-sete-cabeças), porque acho que qualquer pessoa pode entender as idéias de um jurista ou filósofo, desde que tal idéia seja traduzida para um português simples e de fácil compreensão. Na minha opinião, o que existe é um certo medo acadêmico de se tratar questões tão complicadas (serão mesmo?!) com pessoas despreparadas ou mal instruídas. Preserva-se a filosofia, para que a mesma não seja banalizada por qualquer um. “A filosofia é uma construção penosa e trabalhosa”. “Não é justo que os estudantes passem cinco horas por dia lendo Kant para um “Zé Ninguém” qualquer vir dizer que não acredita no Imperativo Categórico” (?!). Parece bem razoável que alguém que leu a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, inteira vai, mesmo que inconscientemente, defendê-la como quem defende a si próprio. Há também aqueles que já a lêem com o intuito de criticá-la consistentemente. Em ambos os casos, a preocupação do leitor em dividir seu conhecimento é secundária, posto que sua dissertação/tese é o mais importante. Não que as questões filosóficas tradicionais não sejam, realmente, importantes, por favor! Mas pensemo-las também com nossas próprias cabeças, hoje! E vamos tratar de dividir nosso conhecimento, trocá-lo.

Já expliquei, por exemplo, algumas idéias que mesmo muitos colegas de faculdade não conhecem, sobre direito, política, física ou filosofia, para pessoas que sequer completaram o primeiro grau (e tenho certeza de que fui muito bem compreendido). Assim como já pude aprender muitas coisas com pessoas mais simples. Basta que se tenha clareza e não se perca em argumentações inúteis. Não que eu me considere melhor do que meus colegas. Muito pelo contrário, acho que, academicamente, tenho muito mais a aprender com eles do que eles comigo. Mas enfim, qualquer outro ser também tem muito a me ensinar. E muitas vezes os ensinamentos de uma pessoa mais simples são de maior utilidade prática do que os provenientes de um douto intelectual. Tenho consciência de que posso trocar com todas as pessoas, dando a elas um pouco de minhas idéias em troca das delas.

Em que pese o protecionismo de seu conhecimento, vejo que quase todos os membros da Academia possuem uma invejável compreensão, mesmo que teórica, da situação atual do nosso país, o que não significa que façam algo para mudá-la. Todos querem publicar seus artigos em revistas especializadas, de preferência norte-americanas, pois “é lá que os melhores estão”. Fico pensando se todos pudessem entender como funciona o Estado Democrático de Direito, como a distribuição da propriedade no país é injusta, e como nós somos manipulados e adestrados, tal como animais, por uma rede de televisão privada, talvez o problema filosófico da liberdade ganhasse novos sentidos. Não só na Academia, mas nas ruas. Será que sabemos o que é liberdade? Somos livres para saber isso?

A maioria das pessoas (mesmo muitos advogados, filósofos e estudantes em geral) acredita que o direito é apenas o que está na lei. Como seria se a população ficasse, repentinamente, sabendo que a Constituição é a lei superior à todas as outras e que ela elegeu o princípio da dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito brasileiro? Será que alguma lei inferior poderia contrariá-lo? Como seria se as pessoas ficassem sabendo que o direito positivo é positivamente submisso a uma série de princípios, que dão vida à nossa Constituição?

Minha dificuldade em escrever para a Academia está, em certa medida, concentrada na minha carência de vocabulário filosófico. Me faltam subsídios intelectuais que são pré-requisitos para uma linguagem que pelo menos aparente alguma erudição. Se eu estivesse aqui tratando, por exemplo, da “democracia em Habermas”, com base em leituras, citações, comentários e ambigüidades intermináveis, mesmo que estivesse fazendo um bom trabalho, me sentiria um tanto quanto violado e oprimido, por não poder expressar minha opinião sobre assuntos aos quais o Habermas me remete e eu não consigo ignorar. Mas reconheço que tenho que fazê-lo, e logo!

Atualmente, seguindo minha analogia futebolística, estou fazendo uma campanha mediana num campeonato bastante competitivo, passando por perto da tão temida “zona de rebaixamento”. Mas cabe lembrar que o campeonato que estou disputando não é por pontos corridos, de modo que ainda posso ser campeão, apesar das dificuldades. É nisso que eu tenho que acreditar, sempre! O fim de ano, que se apresenta como uma avalanche, promete bastante, pois por mais que meu "elenco" esteja longe de ser considerado como “galáctico”, eu, assim como o Grêmio, me agiganto é nos momentos decisivos. O jogo contra o poderoso time do Habermas é decisivo e será encarado como tal. Sei que vai ser uma peleia dura, mas não o temerei, jamais!

Porto Alegre, 7 de novembro de 2005.

Paulo