13.10.05

“CIDADÃO DE BEM” ou “CIDADÃO DE BENS”?

Escrevi este texto para meus colegas (especialmente as minhas colegas), que estão a mandar-me suas manifestações pró armas de fogo. Não quero parecer arrogante, tampouco o dono da verdade, mas é que eu acho esse papo de pânico, com mil e uma teorias da conspiração, todas contra o tal do "cidadão de bem" um tanto quanto reacionário... De qualquer forma, acho que deveríamos estar lutando para poder viver em um lugar mais pacífico - e não bélico - no futuro.

Acho uma pena que a discussão esteja sendo tratada tão pateticamente pela mídia. Tanto a campanha pelo SIM quanto pelo NÃO se tornaram palanques eleitorais. De um lado, “petistas”, de outro, “anti-petistas”. Tenhamos maturidade para encarar a questão de uma forma mais séria e profunda, conforme me proponho a fazer. Como já falei, não sou o dono da verdade, apenas convido a quem estiver interessado para uma breve reflexão sobre o assunto.

Vocês já pararam para pensar no que consiste a idéia de "cidadão de bem"? O único argumento consistente pró-armamento é o de que se está discutindo a limitação de um direito individual, inerente ao “cidadão de bem”. Tenho plena consciência de que o desarmamento significa a limitação de um direito individual, mas pudera... Acho que este direito (o de andar armado) acaba ferindo o direito dos demais cidadãos de andarem tranqüilos.

Sei que existe um forte comércio ilegal de armas no Brasil, até porque é fato notório. Mas esse argumento de que se está a desarmar o "cidadão de bem" é ridículo. Até porque o conceito de "cidadão de bem" é muito vago.

Não estamos numa novela das oito, onde as pessoas ou são do bem ou são do mal. Todos somos bons e maus ao mesmo tempo. A diferença é que uns são oprimidos (a grande maioria) por uma minoria que detém os meios de produção e a propriedade, o que também é fato notório. Não precisamos nos prender a nenhuma teoria "marxiana", "rousseauniana" ou "hobbesiana". Basta que se tenha um pouco de senso crítico (nem precisa de muito) com relação à história da divisão da propriedade no Brasil, desde as capitanias hereditárias... Não é armando o burguês que o país irá melhorar, mas desarmando a todos.

Sei que pode parecer utópica essa idéia, mas o que seria de nós sem a utopia? Sem algo para lutar... Não com armas, mas com atitudes, com a razão. Votar pelo armamento é, no mínimo, consentir com a violência. É demonstrar uma faceta inerente ao ser humano: a covardia.

Como muitos de vocês, tive a oportunidade de viver um ano da minha vida na Europa, mais especificamente em Londres. Como vocês devem saber, no Reino Unido, as armas de fogo são proibidas. Ao longo de toda a minha estada lá, não cheguei a ver nenhuma arma de fogo. Tampouco fiquei sabendo de algum crime envolvendo tais tipos de armamento. Sei que a realidade lá é muito diferente da brasileira, mas apenas quero utilizar esse exemplo como um ideal. Não que a sociedade inglesa seja perfeita. Há muitas coisas por aqui que são melhores, acreditem... Apenas acho que devemos dar cada passo (mesmo que em um ritmo lento) em direção do nosso objetivo. Como diria Eduardo Galeano: “Eu dou um passo, ela dá dois...”. A utopia serve para que andemos na direção correta, mesmo que o caminho seja cada vez maior.

Além do mais, aqui no Brasil, o tal do "cidadão de bem" (burguês, cristão, de classe média, sem antecedentes criminais, com arma registrada) é o que mais mata, sabiam? Não vou citar nenhuma das estatísticas que estão sendo divulgadas, até porque os dois lados (SIM e NÃO) estão e expor estatísticas completamente distorcidas. Falo em realidade. É só irmos à um cartório de execuções penais e perguntarmos pra qualquer atendente se isso é ou não é verdade. Quem mais mata com armas de fogo no Brasil é o tal do "cidadão de bem".

Pergunto: será que o "cidadão de bem" de verdade precisa andar armado? Sendo que todos os revólveres são feitos exclusivamente para tirar vidas (não venham me dizer que a arma é para a caça, pois ninguém caça com um trinta e oito). Ou então, mudo a pergunta: será que algum ser humano está acima do bem e do mal a ponto de poder andar armado sem proporcionar risco à população?

Acho uma pena que muita gente boa, inteligente, esteja sendo seduzida a votar pelo "NÃO" apenas por causa do pavor que a campanha está impondo na população burguesa (a qual me incluo), que, a exemplo de todos, tanto pode ser "de bem", quanto "de mal". Acho uma pena a elite se auto-denominar “cidadãos de bem” e negarem tal status para as outras pessoas que são mais pobres e que atualmente estão se armando para buscar a igualdade “na marra”. Acho uma pena que tenhamos 50 milhões de analfabetos e que um professor primário ganhe um salário tão humilhante. Acho uma pena a Academia ser apenas um instrumento de disputas entre egos individuais. Acho uma pena termos a terceira pior distribuição de renda do mundo. Mas acho que um revólver em cada casa só pioraria as coisas...
Votarei pela limitação de um direito individual, sim, mas em nome do bem comum.

A pergunta é simples:

Onde tu queres viver? Queres viver em um lugar onde andar armado é errado? Ou será que tu achas melhor viver em um lugar onde andar armado é um direito do "cidadão de bem".

Eu confesso que tenho medo do "cidadão de bem"!!! Assim como tenho medo da polícia e dos bandidos (se é que podemos traçar uma linha divisória entre esses três tipos). Pensemos no ser humano, que não é bom nem mau, apenas um incrível mistério indecifrável. Desarmemos a todos! Porque todos somos imprevisíveis por natureza, temos nossos próprios segredos, mistérios... Todos sorrimos e choramos, brigamos e amamos... Façamos isso tudo sem armas por perto...

Não tapemos um buraco fazendo outro maior ainda! Lutemos pela dignidade, pela concretização dos direitos fundamentais. Lutemos contra a submissão cultural a qual estamos sendo impostos goela abaixo pela mídia. “América”, “Bang-Bang”: o que é isso? Lutemos contra essa violência cultural! Lutemos pela educação, pela distribuição de renda e de terras. Mostremos na prática porque queremos ser chamados de “cidadãos de bem” e não “cidadãos de bens”!

Respeito opiniões em contrário (até porque já tive a mesma opinião). Apenas alerto que não é feio mudar. Feio é não estarmos abertos, não termos humildade.

VAMOS ACORDAR!

Paulo