15.10.05

A Geral enlouqueceu

"Dále dalê dalê Grêmio, dalê dalê Grêmio, dalê, dalê Grê... Dalê Grêmio...
Dále!
Y dále Grêmio!
Y dále Grêmio!
Y dáleôôôôô...


Acabo de chegar, borracho e sem nenhum sinal de voz, do jogo do tricolor contra o Santo André. Poderia ficar horas aqui, apenas falando sobre o que aconteceu no monumental esta noite... Poderia falar sobre o fato de o tricolor ter entrado em campo com quase todos os reservas... Poderia ficar aqui reclamando do tal do Jacózinho, que, além de não jogar nada, acha que é o dono do time... Poderia, mas acho que esses dados foram apenas detalhes, contingentes, do que aconteceu.

Todavia, algumas pequenas considerações sobre a partida se fazem necessárias, pois são de um nível mais profundo. Por exemplo, nunca vi tantas gatinhas num jogo de futebol! Muitas mulheres pulando e cantando “somos campeões do mundo... da libertadores também...” Tem um trapo muito grande escrito “Las Geraldinas” no nosso estádio, sabiam? Eu ainda não sabia desse movimento. Vocês precisavam ver as gurias gritando e puxando as músicas... Pulando e gesticulando, como os homens mais fanáticos...

O Grêmio perdeu por dois a zero e a banda, que não se abala com nada mais, reforçada pela nova ala feminina, ficou cerca de vinte minutos depois do jogo cantando no estádio. Emocionante! No meio do jogo, rolou um tumulto contra a polícia, que saiu correndo, diante da avalanche de tricolores loucos, que foram, literalmente, “pra cima dos home”. Coisa de louco.

Depois de sair do estádio (já vazio, com as luzes se apagando, mas ainda cheio de malucos cantando na Geral), fomos para o boteco que já está virando tradicional entre meus amigos. Já até conheço os bebuns de lá, que sempre me saúdam com uma cerveja, na parceria. Cantei até minha voz se acabar, no sentido mais literal da palavra.

Agora, como não posso falar, escrevo. Escrevo para meus amigos que estão longe, mas também para eventuais leitores do meu “blog”. Escrevo pois não me resta mais nada hoje, senão desabafar, contar o que está acontecendo na minha vida, por mais chato que pareça. Uma viagem envolve muitas emoções e eu acho que vivi bastante das emoções relacionadas à viagem do Cadú, motivo pelo qual estou agora sentindo as seqüelas da tal da síndrome de quem fica. Fico, mas não definitivamente. Aliás, acho que nada pode ser tido por definitivo mais nessa vida.

Bom, infelizmente, não estou numa praia agora. Tampouco roubando beijos de mineirinhas de dezesseis anos. Estou bêbado, sem voz e sem dinheiro. Acho que devo descansar. Quanto aos meus amigos, desejo-lhes o mais profundo e verdadeiro amor. Desejo toda a paz e harmonia para que vocês realizem tudo o que acharem necessário.

Em breve, estarei por aí, mesmo que seja de visita.

Vamô vamô tricolor...
Hoje eu vim te apoiar
Para te ver campeão
Para te ver ganhar!


Geral do Grêmio

Paulo

13.10.05

“CIDADÃO DE BEM” ou “CIDADÃO DE BENS”?

Escrevi este texto para meus colegas (especialmente as minhas colegas), que estão a mandar-me suas manifestações pró armas de fogo. Não quero parecer arrogante, tampouco o dono da verdade, mas é que eu acho esse papo de pânico, com mil e uma teorias da conspiração, todas contra o tal do "cidadão de bem" um tanto quanto reacionário... De qualquer forma, acho que deveríamos estar lutando para poder viver em um lugar mais pacífico - e não bélico - no futuro.

Acho uma pena que a discussão esteja sendo tratada tão pateticamente pela mídia. Tanto a campanha pelo SIM quanto pelo NÃO se tornaram palanques eleitorais. De um lado, “petistas”, de outro, “anti-petistas”. Tenhamos maturidade para encarar a questão de uma forma mais séria e profunda, conforme me proponho a fazer. Como já falei, não sou o dono da verdade, apenas convido a quem estiver interessado para uma breve reflexão sobre o assunto.

Vocês já pararam para pensar no que consiste a idéia de "cidadão de bem"? O único argumento consistente pró-armamento é o de que se está discutindo a limitação de um direito individual, inerente ao “cidadão de bem”. Tenho plena consciência de que o desarmamento significa a limitação de um direito individual, mas pudera... Acho que este direito (o de andar armado) acaba ferindo o direito dos demais cidadãos de andarem tranqüilos.

Sei que existe um forte comércio ilegal de armas no Brasil, até porque é fato notório. Mas esse argumento de que se está a desarmar o "cidadão de bem" é ridículo. Até porque o conceito de "cidadão de bem" é muito vago.

Não estamos numa novela das oito, onde as pessoas ou são do bem ou são do mal. Todos somos bons e maus ao mesmo tempo. A diferença é que uns são oprimidos (a grande maioria) por uma minoria que detém os meios de produção e a propriedade, o que também é fato notório. Não precisamos nos prender a nenhuma teoria "marxiana", "rousseauniana" ou "hobbesiana". Basta que se tenha um pouco de senso crítico (nem precisa de muito) com relação à história da divisão da propriedade no Brasil, desde as capitanias hereditárias... Não é armando o burguês que o país irá melhorar, mas desarmando a todos.

Sei que pode parecer utópica essa idéia, mas o que seria de nós sem a utopia? Sem algo para lutar... Não com armas, mas com atitudes, com a razão. Votar pelo armamento é, no mínimo, consentir com a violência. É demonstrar uma faceta inerente ao ser humano: a covardia.

Como muitos de vocês, tive a oportunidade de viver um ano da minha vida na Europa, mais especificamente em Londres. Como vocês devem saber, no Reino Unido, as armas de fogo são proibidas. Ao longo de toda a minha estada lá, não cheguei a ver nenhuma arma de fogo. Tampouco fiquei sabendo de algum crime envolvendo tais tipos de armamento. Sei que a realidade lá é muito diferente da brasileira, mas apenas quero utilizar esse exemplo como um ideal. Não que a sociedade inglesa seja perfeita. Há muitas coisas por aqui que são melhores, acreditem... Apenas acho que devemos dar cada passo (mesmo que em um ritmo lento) em direção do nosso objetivo. Como diria Eduardo Galeano: “Eu dou um passo, ela dá dois...”. A utopia serve para que andemos na direção correta, mesmo que o caminho seja cada vez maior.

Além do mais, aqui no Brasil, o tal do "cidadão de bem" (burguês, cristão, de classe média, sem antecedentes criminais, com arma registrada) é o que mais mata, sabiam? Não vou citar nenhuma das estatísticas que estão sendo divulgadas, até porque os dois lados (SIM e NÃO) estão e expor estatísticas completamente distorcidas. Falo em realidade. É só irmos à um cartório de execuções penais e perguntarmos pra qualquer atendente se isso é ou não é verdade. Quem mais mata com armas de fogo no Brasil é o tal do "cidadão de bem".

Pergunto: será que o "cidadão de bem" de verdade precisa andar armado? Sendo que todos os revólveres são feitos exclusivamente para tirar vidas (não venham me dizer que a arma é para a caça, pois ninguém caça com um trinta e oito). Ou então, mudo a pergunta: será que algum ser humano está acima do bem e do mal a ponto de poder andar armado sem proporcionar risco à população?

Acho uma pena que muita gente boa, inteligente, esteja sendo seduzida a votar pelo "NÃO" apenas por causa do pavor que a campanha está impondo na população burguesa (a qual me incluo), que, a exemplo de todos, tanto pode ser "de bem", quanto "de mal". Acho uma pena a elite se auto-denominar “cidadãos de bem” e negarem tal status para as outras pessoas que são mais pobres e que atualmente estão se armando para buscar a igualdade “na marra”. Acho uma pena que tenhamos 50 milhões de analfabetos e que um professor primário ganhe um salário tão humilhante. Acho uma pena a Academia ser apenas um instrumento de disputas entre egos individuais. Acho uma pena termos a terceira pior distribuição de renda do mundo. Mas acho que um revólver em cada casa só pioraria as coisas...
Votarei pela limitação de um direito individual, sim, mas em nome do bem comum.

A pergunta é simples:

Onde tu queres viver? Queres viver em um lugar onde andar armado é errado? Ou será que tu achas melhor viver em um lugar onde andar armado é um direito do "cidadão de bem".

Eu confesso que tenho medo do "cidadão de bem"!!! Assim como tenho medo da polícia e dos bandidos (se é que podemos traçar uma linha divisória entre esses três tipos). Pensemos no ser humano, que não é bom nem mau, apenas um incrível mistério indecifrável. Desarmemos a todos! Porque todos somos imprevisíveis por natureza, temos nossos próprios segredos, mistérios... Todos sorrimos e choramos, brigamos e amamos... Façamos isso tudo sem armas por perto...

Não tapemos um buraco fazendo outro maior ainda! Lutemos pela dignidade, pela concretização dos direitos fundamentais. Lutemos contra a submissão cultural a qual estamos sendo impostos goela abaixo pela mídia. “América”, “Bang-Bang”: o que é isso? Lutemos contra essa violência cultural! Lutemos pela educação, pela distribuição de renda e de terras. Mostremos na prática porque queremos ser chamados de “cidadãos de bem” e não “cidadãos de bens”!

Respeito opiniões em contrário (até porque já tive a mesma opinião). Apenas alerto que não é feio mudar. Feio é não estarmos abertos, não termos humildade.

VAMOS ACORDAR!

Paulo

Carta sincera à minha pessoa

São sete e seis da manhã e eu acabo de sentar à frente do computador, para escrever-lhes um relato dos momentos que estou vivendo. Um breve relato, é verdade, pois ainda me sinto tímido diante do super computador que comprei, ou melhor, ganhei de presente de formatura, de meu avô. Na verdade, tudo na minha vida está confuso agora. Não sei o que me oprime, se é a imponência do aparelho, ou se é a minha covardia em abrir-me, em permitir-me diante das coisas que se me apresentam nesta vida.

Vou começar pelo começo. Sou uma pessoa sincera. Ou não. Não sei se posso afirmar nada mais. Mas, em todo o caso, considere-me uma pessoa sincera. Mas acredite em mim. Acredite tanto, para que eu possa também acreditar.

Na realidade, neste momento da minha vida, estou buscando ser, antes de tudo, sincero. Como uma cláusula pétrea na constituição da minha existência. Um princípio intocável, forte e que tenha o objetivo de ser universal. Pois é, na verdade não sei se não aceitaria uma oferta trilionária para corrompê-lo, se com o dinheiro da minha corrupção, eu pudesse resolver alguns importantes problemas do meu planeta, a Terra. Mesmo assim, o tema “corrupção” já está muito esgotado nos dias de hoje.

Jornalistas, políticos, empresários, operários... Não sei quem é que tem a melhor, mas todos tem uma concepção própria da palavra “corrupção”. Cada um tem seus próprios conceitos, suas próprias definições de o que isso significa. Não tentarei convencê-los de meu ponto-de-vista, pois é apenas o meu. Assim como não espero que venham tentar me convencer de nada. Apenas troco com as pessoas. Não imponho nada, mas não venha me impor! Portanto, seguirei apenas meu discurso com a lógica da sinceridade. É tão simples. Algo que se resume em uma palavra, mas significa infinitas maneiras de agir. Aprofundamos nosso pensamento em detalhes e esquecemos do principal, que pode às vezes até, ser resumido em uma palavra, como é o caso da que escolhi para mim. Não que não possas pensar diferente. Como já falei, apenas falo a minha opinião, e quem quiser, que as leia. Senão, fale mal de mim mesmo, mesmo sem me conhecer.

Quando falo em conhecer, falo em trocar, jamais sugar. Falo em somar e acho que os resultados devem ser bons para os dois (ou mais) lados, da mesma forma. Opressor e oprimido juntos, buscando um entendimento mútuo, pois sabem pertencer a um mesmo ser: Eu. Tenho esses dois lados dentro de mim. Acho, na verdade, que todos temos, mas seria muita pretensão de minha parte achar que posso saber o que se passa na sua cabeça, meu senhor. Peço desculpas, desde logo. Se me conheces, sabes que não quero nunca ofendê-lo, senhor.

O chamo de senhor, assim como chamo o colega, o vizinho (mesmo o que não gosta de mim). Como é o caso do síndico do meu prédio, por exemplo. Ele me odeia, mas acho que nunca mais devo perder a elegância com ele. Pois ele, como a maioria das pessoas que conheço, “é de lua”. A cada dia, parece um ser diferente. Mesmo que me odeie, acho que isso não é culpa só dele, talvez até seja um pouco minha também, mas não sei, não importa. Minha sinceridade não tem valor para ele, que, certamente, acredita em um valor diferente do meu. Talvez seja o do “respeito”. Se fosse esse o caso, gostaria muito de dizer a ele que não precisa se preocupar. Sempre o respeitarei, dentro da minha sinceridade. É nisso que preciso me firmar. Na minha sinceridade. Seria a minha sinceridade variável? Não posso responder. Tenho apenas que acreditar nela. É a minha maior arma para lutar por qualquer coisa nesta vida. Mesmo que seja variável.

Talvez seja como parar de fumar. Tentei muitas vezes parar de fumar, todas em vão. Resolvi começar a pensar apenas no lado prático disso e encarei diante de minhas possibilidades de esclarecimento, uma boa possibilidade. A de pensar no dia da hoje, o mais importante da minha vida. Não que eu não possa vir a ser visto qualquer dia desses com um cigarro na mão. É evidente que não pretendo voltar a fumar jamais, mas sei que um dia posso acabar por fazê-lo. É que minha sinceridade pode vir a ser flexível, apesar de que me apoio nela para tudo, desde que seja belo.

Será que, por isso, a beleza deve vir antes da sinceridade na minha constituição? Acho que não. Mas não deixa de ser a mesma discussão. A beleza também é variável, flexível, pelo menos na minha opinião. Variável entre diferentes pessoas, mas também, faz muita força contraditória dentro de um só indivíduo, desde que ele esteja vivo. Afinal de contas, o que é beleza? Será que beleza é aquilo que fomos ensinados a acreditar que é a beleza, com base na vida que levamos, na realidade dos meios de comunicação dos locais onde vivemos ou será ela uma coisa abstrata, relativa e linda. O que seria a beleza?

Sem me prender demais em divagações de boteco, aproveitarei este fim de noite para tentar sair do mundo das idéias e entrar na vida prática, a da vida considerada “real”. Não que a vida “real” não siga princípios filosóficos, na minha opinião (como já falei, acredito na ditadura da sinceridade. Ou melhor, me esforço para acreditar, mas enfim...). A vida é também material, de carne e osso, afinal de contas. Ela é doce e amarga, cheia ou vazia. Depende.

É justamente desse “depende” que depende a minha vida. Ele me cerca e grita: “daleôôôô”, como num jogo do tricolor. Sem parar. É como se eu fosse aquela imprevisibilidade que fez Einstein afirmar que tudo é relativo. Mesmo que eu acredite na sinceridade, ela pode manifestar-se de maneiras diferentes em mim, isso eu já sei. Até porque admito que posso mudar. Sempre poderei mudar! E deverei me deixar ser mudado. Mas não deixo de acreditar na sinceridade, de qualquer forma. Assim como tenho medo de algumas mudanças. Se eu acreditasse na ditadura da mudança, poderia ser minha vida melhor do que acreditando na minha sinceridade?

Será que o espírito da mudança é o que me faria superar o da sinceridade? Acho que não, embora provavelmente o ajude, o liberte. A sinceridade é livre, embora eu acredite que ninguém é inocente nessa história toda. Nem mesmo a minha querida sinceridade. Mas, enfim, a mudança tem que ser sempre sincera, afinal de contas, mesmo que em última instância, é ela que entra em contato com tudo que é “real”, que é o que embasa e contamina nossas idéias. O momento é sempre em última instância. A derradeira, porém eterna. Antes apenas é previsão. Depois é apenas versão. Nada pode nunca ser tão real quanto o momento. Será que o momento requer mais sinceridade ou mudança? Prefiro acreditar na sinceridade, mas sei que muitos dos senhores, após pensar um pouco mais sobre o assunto, podem acabar escolhendo a mudança. Eu mesmo posso fazer isso um dia. Mas hoje, prefiro acreditar na sinceridade, estou apaixonado por ela, que está viva e latente em mim.

Por isso, tanto quero falar-lhes sobre o meu momento. Mas os senhores, certamente, se aborreceriam e não conseguiriam escutar-me até o final, o que, na minha opinião, se deveria, única e exclusivamente, à algum preconceito seu, puro medo seu. Medo, ao mesmo tempo de perder tempo lendo coisas que não lhe acrescentarão nada na lógica em que vivemos, a lógica do capital, a do medo de viver, simplesmente viver. Talvez seja medo de encontrar alguma coisa em comum com esse meu momento, que, com certeza, pode parecer-lhe um momento negro da minha vida, mas lhes garanto estar sob controle. Pelo menos é nisso que eu acredito, sinceramente, agora. Ou melhor, quero acreditar, pois me dizem sempre que eu posso perder, assim como posso ganhar.

Ganhando ou perdendo, posso estar passando toda a minha vida entre vitórias e derrotas, isto ou aquilo, uma coisa ou outra. Não necessariamente bem ou mal, embora seja muito bom vencer e por vezes humilhante perder. A própria vitória pode ser humilhante, depende das regras do jogo. Se quisermos falar em jogo, certamente teremos que começar estabelecendo as regras. Todos somos jogadores e merecemos o direito de influenciar nas normas. Não é mesmo? O que seria, então a solidariedade? Ou o livre-arbítrio? Seriam normas absolutas, uma sobre a outra, ou deveriam interagir? Onde a minha sinceridade entraria aqui? Que hierarquia teria ela (se é que se poderia comparar) diante da ditadura do interesse, que norteia as regras do “jogo”, qualquer que seja ele. Tento aqui, meio desacreditado, é verdade, sustentar a minha tão batalhada, distorcida e maravilhosa sinceridade.

É aí que eu vou pedir-lhes muita atenção para quando eu, mesmo sofrendo para preservar uma idéia de sinceridade, fugindo das armadilhas que ainda nem sequer me foram armadas, para dar sentido ao meu discurso, à minha própria existência, cheguei à conclusão de que mesmo a minha própria sinceridade é relativa, como um telefone que toca e já “sei” que é determinada pessoa, pois esta combinou comigo inclusive um horário para telefonar e estou apenas esperando telefonemas de sua parte. Entretanto, ao dizer: “alô”, eu, mesmo sem saber, acreditei na possibilidade de a ligação ter sido feita por uma outra pessoa, alheia à toda esta história. Apenas creio, acidentalmente, na possibilidade, mas quase nunca procuro compreendê-la. Muitas vezes, mesmo sem saber, torço por ela.

Torço pelo “São Randão”, diriam alguns amigos. Mas constatei que torço pelo “São Randão” – o santo das causas aleatórias – apenas quando estou sendo oprimido. Quando estou oprimindo, mesmo que desintencionalmente, acabo torcendo pelo dito “normal”, embora o “São Randão” sempre me tente muito. Por sinal, tenho passado muito tempo ultimamente com os meus amigos. Eles estão me ajudando a encarar este meu momento (ou fugir dele...), o qual, na realidade, é a razão de toda essa minha ladaínha, que ora vos apresento.

Hoje entendo que acredito muito na minha sinceridade, mas não quer dizer que nunca vá mudar de posicionamento, que eu não possa fazê-lo, quando entender necessário. Mesmo quando não puder entender nada. Ceder para a vida que se apresenta. Minha sinceridade apenas será corrompida se o preço que eu tiver de pagar for justo, diante de um só princípio, o da sinceridade...

Mas é uma árdua tarefa trazer a sinceridade para a vida real... Na realidade, é extremamente difícil sermos completamente coerentes com algum princípio, por todo o tempo... Pois todo o princípio, por mais belo que seja, ao virar dogma, se transforma em algo prejudicial e cego. Por isso, senhores, escolhi para a minha constituição um princípio aberto. Que não deixa de ser coerente, pois limita-se apenas nele mesmo.
Mas enfim... O fato é que eu prefiro (e preciso) acreditar nisso! É o que me resta. Minha vulnerável sinceridade... E quanto ao senhor, não sei. Talvez o senhor seja normal e não se ocupe com essas questões de louco que acabo de trazer. Talvez até se identifique um pouco com tudo isso... De qualquer forma, saberei quem realmente me entendeu.

Saliento que ainda acredito num eventual contato sincero com o senhor, para, se possível, trocarmos algo, desde que seja bom para ambos.

Sinceramente,

Eu.

Porto Alegre, 11 de setembro de 2005.

Um pulo por um mundo melhor

Acreditem se quiserem, mas de acordo com as pesquisas do alemão Hans Niesward e sua equipe, do departamento de Física Gravitacional da Universidade de Munique, a humanidade pode tirar a Terra da sua órbita e faze-la atingir uma mais externa, que reduziria os efeitos do aquecimento global, estenderia a duração de um dia e que criaria um clima mais homogêneo no planeta. Basta que, no dia 20 de julho de 2006, cerca de 600 milhões de pessoas que vivem no hemisfério oeste dêem um pulo simultâneo, às 11:39:13 GMT (Horário de Brasília - 08:39:13). Segundo os cientistas, os efeitos do pulo (de acordo com o ponto em que a Terra estará em sua atual órbita no momento) podem fazer o nosso planeta atingir sua nova órbita, mais afastada do sol. Isso faria com que um ano (uma volta da Terra em torno do sol) seja mais demorado, sugerindo uma alteração também na duração de cada dia.

Mais de 302.782.245 de pessoas já registraram-se na campanha, que está exposta no site www.worldjumpday.org, onde podemos todos registrar-nos, para receber o aviso, por email, no dia “D”. O melhor de tudo é que ninguém perde nada com o “pulo”. Não há nenhum interesse econômico direto em jogo, aparentemente.

Do ponto-de-vista científico, as afirmações só podem presumir uma probabilidade de isso ocorrer. Pode ser que, no dia marcado, fiquemos todos pulando como tolos, em prol de uma mesma causa, universal, em vão. Imagino a cena: 600 milhões de pessoas pulando feito crianças, porque um alemão doido falou que ia melhorar pra todo mundo. Aí poderemos ver quem está do nosso lado. Já imaginaram eu e o Geoge Bush pulando juntos, por um mundo melhor? O policial militar, o presidiário, o empresário, o sem-terra... Todos pulando. Seria uma forma de criarmos uma identidade. “Ôôôô... Somos terráquios!!!” “Dále, dále, dále, dále Terra!!!”... Imaginem: Quem mora no outro hemisfério vem até aqui, só para pular. Já pensaram nisso? Que loucura! Gremistas e colorados abraçados, pulando juntos. O patrão e o empregado, o motorista de ônibus e os seus passageiros a pular na hora certa, ajudando a mudar o mundo. Não tenho dúvida de que a energia seria tão forte, mas tão forte, que poderemos até acreditar que o mundo realmente mudou de órbita. E isso pode fazer com que ele mude mesmo. De qualquer forma, independentemente dos resultados práticos a que se chegar, quem pular estará admitindo que deseja um mundo melhor para viver. Ou simplesmente acredita, talvez inocentemente, que essas horas a serem "ganhas" serão usadas para o descanso, ou para o lazer. Mas, certamente, haverão os que pleitearão uma mais longa jornada de trabalho, posto que não é muito "saudável" para o "sistema" que a pessoa fique muito tempo "desocupada". Permanecendo mais tempo em casa, talvez o povo brasileiro possa "enjoar" da Rede Globo e começar a ler livros, por exemplo... Acho pouco provável, mas não custa ter esperança.

Poderemos começar por aí, pulando. A partir deste pulo, podemos buscar outras coisas para marcar outros valores. Por exemplo, estabelecemos que para um mundo melhor, temos que fazer alguma coisa a cada dia, a cada momento. Olhemos os outros a fazer e façamos tudo em conjunto, porque isso mudará o mundo. Não precisamos aumentar o número de dias no ano, mas diminuir os dias passados no trabalho, por exemplo. Racionalizemos recursos, façamos tudo pensando na própria existência (não necessariamente em um sentido individualista), na própria vida, em seu sentido mais amplo, diariamente. Ou então, marcamos um dia e uma hora para fazermos o bem para o mundo... Talvez funcione mais... Pulemos!

Paulo