12.9.10

Refúgios de prazer

O ser humano se adapta a quase tudo. Temos a capacidade de viver em diversos lugares e circunstâncias. Onde quer que estejamos, sentimos uma natural necessidade de prazer. Necessitamos bons momentos. Encaramos as mais adversas situações, aceitando em troca algumas doses de diversão. A semana de trabalho estressante, o trânsito congestionado, a fumaça, o medo... Tudo isso se perde ou pelo menos perde o significado quando chega a sexta-feira e nos sentamos em uma mesa de bar, rodeados de amigos. Ou quando nos encontramos com pessoas queridas, viajamos ou fazemos algo que nos proporciona prazer. É como se a vida ficasse mais amena. Desfrutamos nosso merecido momento de descanso.

Dando um zoom na questão, podemos analisar, em escala um pouco maior, como nossos anos estão divididos. São dez, onze meses de trabalho – sempre alimentados pelos pequenos refúgios de prazer – para podermos passar um mês de férias. Aí concentramos todas as energias. Esbanjamos, comemos fora, viajamos a praia, à montanha, tiramos fotos sorrindo e brincamos de viver momentos de pura alegria. Tudo é belo durante esse tempo que chamamos de férias. Quase esquecemos os outros onze meses que, em seguida, voltarão a dominar a quase totalidade do nosso tempo de vida útil...

O problema é que a nossa vida é cem por cento útil... Por mais que tenhamos capacidade de sobreviver e adaptar-nos às mais diversas situações – violência, frio, sujeira, poluição, etc. – podemos dedicar nossa existência a outros tipos de experiência, onde viver signifique mais do que apenas sobreviver. Onde ser signifique mais do que estar. Bem estar, estar bem. Todo o tempo. Sem medos, sem suplícios. Sem purgatórios.

...

Há algum tempo, fiquei sabendo que existe uma sociedade secreta, uma espécie de maçonaria, composta só de pessoas que resolveram viver bem. Dentro dessa sociedade, todos se ajudam. Não há nenhum tipo de crença, senão o sonho compartilhado de viver num mundo melhor hoje mesmo. Normalmente, os que se iniciam nesse rito são convidados de membros mais antigos, jamais por acaso. Mas também há outras formas de ingresso, só que o candidato deve encontrar o caminho e decifrar alguns enigmas por conta própria. Foi assim que entrei.

As pessoas que entram nessa sociedade trabalham, estudam, viajam, mas vivem o tempo todo de férias, seja em movimento, seja vivendo em um determinado lugar. Não conhecem diferença entre obrigação e diversão. São meros usuários temporários e circunstanciais das coisas belas. Respiram ar puro por opção. Vivem sem qualquer tipo de pressão. Voam sem sair do chão... Passam o tempo ouvindo e dizendo sim, pois desconhecem a palavra não. Desistiram do medo, da insegurança e a responsabilidade, em seu sentido pleno, virou uma paixão. Abriram o coração. E o portão, de casa, para quem quiser entrar...

Mas onde isso vai parar? Ninguém aqui se importa. Cansamos de pensar nos fins. Qualquer destino é ilusão. Já sabemos pra que lado devemos andar e andamos com tesão. A cada dia somos mais. Cada segundo vale ouro.

Para juntar-se a nós, o candidato deve portar apenas poucos documentos: a certidão de coragem e o mero passaporte da sinceridade.

15.6.07

A Batalha Redentora

Hoje é dia 15 de junho de 2007 e, curiosamente, vivo uma dupla aflição. Minha vida se divide entre duas angústias sem tamanho: o final de um mestrado, levado muito mais na base da garra e da luta do que do cientificismo acadêmico propriamente dito; e a final da Libertadores da América, onde meu time é muito limitado, mas possui como principal virtude a determinação e o apoio incondicional de sua louca torcida. Como não quero parecer oportunista, já deixo registrado que acredito nas duas conquistas.

A redação final da dissertação está quase pronta. O juiz levantou a placa mostrando que haverá 15 minutos de acréscimos. Já estou nos 55 do segundo tempo e ainda me falta um gol. Preciso escrever sobre Kant, para mostrar que eu “mereço” o título acadêmico em jogo. Não gosto de Kant, mas jogarei pelo regulamento.

Acredito que o que se faz na academia não é filosofia, mas quem sou eu para discordar daqueles que detém todo o poder simbólico? Quem sou eu para defender a idéia de que o cientista de verdade deve buscar resultados úteis para a sua sociedade?

Para que serve a academia, senão para realizar uma busca individual e egoísta? Porque não se julga uma tese de acordo com a sua preocupação em realizar mudanças efetivas no mundo onde está inserida? Porque a ciência tem que ser considerada como uma coisa alheia ao mundo real? Onde está a responsabilidade?

Meu trabalho não está de todo ruim, mas certamente receberá duras críticas da banca examinadora. Talvez o título escape das minhas mãos nestes minutos finais, mas acho que tudo dará certo. Já o Grêmio, vai começar o jogo perdendo por três a zero. O adversário é o mais qualificado dentre todos os adversários possíveis. Mas ninguém duvida do tricolor.

Mais uma vez, eu e o Grêmio caminhamos juntos para uma decisão. A maior de todas elas. O momento mais importante de todos. A hora de dar a vida, de apoiar incondicionalmente e buscar a qualquer preço uma vitória. Vencer ou vencer. Seria a redenção!

Mais do que nunca, temos que cantar. Cantar até a voz se acabar.

FORÇA GRÊMIO!

8.5.07

Imortal

Faz tempo que não escrevo nada para publicar aqui. Não vou perder tempo buscando razões para justificar esta pausa. A verdade é que a página é minha e eu devo escrever quando quiser.

Nos últimos tempos, muitas foram as vezes que um texto se fez necessário. Muitas coisas aconteceram. A pressão do fim de mais uma etapa se acentua a cada dia passado na improdutividade objetiva. Vivo uma constante dialética interna. Penso, penso e sempre faltam maneiras de expressar meus pensamentos. A cada pequena vitória, uma grande comemoração. Nas derrotas, me resta o apoio incondicional de mim mesmo. Parece que as coisas têm que ser sempre difíceis. Que meus passos sempre excedem o tamanho de minhas pernas. É minha sina.

Decidi sair do jejum para homenagear o Grêmio, mais uma vez campeão gaúcho. Por mais que as comemorações tenham sido tímidas, devido às expectativas em torno do jogo de amanhã, contra o São Paulo, foi uma conquista merecida, que exaltou mais uma vez a imortalidade. A palavra imortal, comumente associada ao meu time me serve de alento para tudo nessa vida. É nela que me apego, mais uma vez.

Me divido entre minhas próprias angústias e as do imortal. Tudo se mistura neste momento. Amanhã o jogo será de vida ou morte, assim como será cada segundo daqui por diante. É hora de lutar com todas as forças. É hora de dar o sangue.

Porto Alegre, 08 de maio de 2007.

19.7.06

Forma e conteúdo


I
Parte branca

O tudo e o nada se identificam por serem opostos. Quando nós, homens, descobrimos a razão, logo nos apaixonamos por ela. Antes, raciocinávamos sem pensar na razão. Nossa razão, então, foi logo dividindo as coisas. Para se compreender o tudo, é necessário que se compreenda o nada. Mas, é importante que se diga, não há como compreender noções tão vagas através apenas da razão. Até porque a razão é apenas uma de nossas faculdades, um dos pólos de nossa essência. E nossa essência, jamais pode ser completamente afastada da nossa aparência. Os opostos se atraem? Não. Se identificam? Sim, justamente por serem opostos. Complicado? Não e sim.

Pensamos, logo existimos. Certo? Não. Então, existimos, logo pensamos? Também não. Existimos e pensamos ao mesmo tempo? Talvez... Somos e estamos em tudo? E em nada? Sempre e nunca? Parece mais razoável. Porque deveríamos abrir mão da matéria e ficar apenas com o espírito? Ou renunciar à espiritualidade e nos agarrarmos à matéria? Porque?
Porque desistir de um sonho em prol da realidade? Ou vice-versa? O que é sonho? O que é realidade? Estamos acostumados a dividir pateticamente as coisas em dois. Por exemplo: ou somos liberais ou somos socialistas; normais ou loucos; razão ou emoção. Não há como sermos um pouco de cada? Muitos diriam que não.

No entanto, até hoje nenhuma pessoa encontrou a fronteira exata entre a razão e a loucura, entre o que é certo e o que é errado. No máximo, temos consensos sobre extremos. O direito de propriedade, criado pelo homem, é considerado correto pela imensa maioria das pessoas. De qualquer forma, a grande maioria dos consensos são temporários. Até porque o que é considerado normal hoje pode vir a ser considerado ridículo amanhã. E vice-versa.

Será que existe uma linha divisória entre o que é do corpo e o que é da alma? O que fazer para superarmos essa dualidade e vivermos ambas as dimensões, com toda a inteireza e com toda a beleza?

Como enxergar a unidade naquilo que estamos acostumados a ver uma dualidade, sem, no entanto, deixarmos de contemplar a mesma dualidade, em toda a sua beleza? Nossa vida cotidiana é fundamentada por princípios cronológicos, deterministas e demasiado racionais. Um bom exercício é prestarmos mais a atenção em manifestações artísticas. Até porque dizem que a vida imita a arte. Ou seria a arte que imita a vida?

Às vezes, um sorriso diz muito mais que um livro, uma música. Uma decisão judicial pode ser muito mais bela que uma poesia. Até porque os opostos não se opõe em absoluto. Vida e arte, sonho e realidade, liberdade e igualdade, matéria e forma...

Brindemos à falência da razão prática! Saudemos a imperfeição, manifestação máxima de qualquer ideal de perfeição! Olhemos nos olhos.

II
Parte vermelha

Segurança jurídica ou eqüidade? Matéria ou forma? Ou ambos? Nosso sistema jurídico coloca a forma acima do conteúdo. O ensino do direito nas universidades se resume, via de regra, ao estudo da legislação vigente. As ciências jurídicas são cadê vez menos sociais. Os técnicos do direito que dominam os regulamentos é que são considerados os "bons advogados". Seus honorários são altos. Quantos podem pagar caro por um especialista?

A justiça está sendo escravizada pela forma. Está sendo vendida aos sanguessugas de terno e gravata que passam mais tempo vendendo meios "legais" de se sonegar impostos do que defendendo pessoas simples do cárcere social. Não me refiro apenas às cadeias. As cadeias prendem a liberdade do corpo. Mas as nossas idéias são presas muito antes. Somos criados para repetir. E consumir nossa própria insignificância. Nossa educação é mera preparação para o mercado de trabalho. Tudo gira em torno do mercado. Temos que ser alguém na vida! E alguém disse que não existe mais escravidão no Brasil...

Nossa democracia é uma fachada elegante para uma ditadura muito perigosa. Uma ditadura que não conhece valores, pois tem a prerrogativa de neutralidade. A lei é igual para todos, não é mesmo? Mas a igualdade é apenas formal. Daí decorre a nossa liberdade, que fundamenta o liberalismo. Podemos fazer tudo o que a lei não nos impeça. Mas temos que aceitar a ditadura do mercado, que não conhece ética, pois se pretende neutra. De fato, o capitalismo (ou a ditadura do capital) é formalmente neutro.

Mas não podemos negar a existência de uma realidade material. Enquanto os técnicos, cada vez mais especializados em cultuar a aparente perfeição das formas e da segurança jurídica, se desdobram em descobrir cada vez mais artimanhas jurídicas, milhões de pessoas nem sabem o que é o princípio da ampla defesa.

Nesse ambiente completamente caótico, as penitenciárias estão cheias de gente que não pode contratar os conhecedores do "direito" napoleônico-burguês que regula nossas vidas. E são muitos os que não podem pagar pela justiça do formalismo tecnocrata. Muitos mesmo!

E, todavia, há quem defenda a primazia da economia sobre o direito. Enquanto o mercado se auto-regula livre e impunemente, os subúrbios das grandes cidades denunciam que alguma coisa está errada. Alguns gravetos isolados começam a pegar fogo. Pouco a pouco, juntam-se. Dois ou três. O fogo apaga. Juntam-se dez, vinte, cem. Fogueiras aparecem em meio ao mar de resignação. Pouco a pouco, atratores ganham força, ganham número. Há esperança.

III
Parte verde

A natureza pertence ao homem ou o homem pertence à natureza? As duas coisas ao mesmo tempo. Na verdade, somos a natureza. Precisamos juntar o que separamos! Forma e conteúdo, matéria e espírito, razão e loucura... Não somos alheios à natureza, mas parte dela.

Esta simples constatação nos conduz à várias conclusões esperançosas. Se somos parte de um todo, precisamos cuidar deste todo, que também é parte de nós mesmos. Se as outras pessoas também são partes do mesmo todo, elas são parte de nós mesmos. E nós, delas. Precisamos cuidar dos nossos irmãos como cuidamos de nós mesmos e da natureza, pois somos todos a própria natureza.

Não importa quem vem antes, o ovo ou a galinha. O que importa é que um depende do o outro, mutuamente. Sem ovos, não teremos mais galinhas, Sem galinhas, nada de ovos. Parece banal, mas pouca gente compreende isso, justamente pela simplicidade. Nos acostumamos a suspeitar logo de cara das coisas simples. Aprendemos a cultuar coisas complexas. Somos hipnotizados pela forma.

Mas como mudar as estruturas do mundo em que vivemos sem usarmos de violência? Como acabar com a ditadura do mercado sem mexermos com milhões de interesses? Como podemos fazer para atingirmos algum consenso?

Não nos iludamos! Ninguém nos dará a resposta objetivamente. Até porque a resposta está dentro de nós mesmos. O máximo a que se pode chegar é perto. Arte! Precisamos de arte nas nossas vidas. Dancemos livremente, sem coreografias ensaiadas.

Quando nos damos conta de que a vida é uma peça de teatro e podemos escrevê-la à nossa maneira, livremente, nos sentimos muito importantes. Aí, pensamos em escrevê-la de diversas formas... Pensamos, pensamos e nos damos conta de que não só estamos escrevendo a peça, mas que já estamos no palco, desde o começo, apresentando a versão final do nosso espetáculo.

O rascunho que foi amassado e jogado no lixo faz parte do nosso livro. As palavras que nunca foram ditas, os gritos presos na garganta, tudo. Cada um decide de que lado vai ficar. Se vai tomar a pílula azul ou se vai encarar a vermelha... Se quer dirigir seu próprio filme ou prefere ficar assistindo, calado, a vida desenhar seu roteiro, de acordo com o padrão estabelecido por um sistema programado para neutralizar-nos. Vamos desgarrar-nos do resto da boiada! Não sejamos abatidos assim, calados!

Resistamos! Acendamos um charuto para o nascimento de um novo homem. Um homem dotado de sensibilidade. Que se compreenda como parte e todo, todo e parte. Sempre existem fogueiras perto de nós. É só olharmos para o lado.

30.6.06

Marcola, por Arnaldo Jabor

Em sua colouna de 23/05/2006, no jornal O Globo, o jornalista Arnaldo Jabor publicou uma entrevista fictícia com Marcos Willians Herbas Camacho, mais conhecido como Marcola, comandante do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Apesar de forte e pessimista, sou obrigado a reconhecer que o teor da coluna é de cunho extremamente realista. Nos resta perguntar: estamos realmente interessados em compreender de verdade o problema? Ou seguiremos de olhos fechados, fingindo que tudo está certo e sob controle? Em que medida o personagem vivido por Arnaldo Jabor estaria correto?
...

Estamos todos no inferno. Não há solução; pois, não conhecemos nem o problema.

- Você é do PCC?

- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... Vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias... A solução é que nunca vinha... Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez: alocou uma verba para nós? E nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a "beleza dos morros ao amanhecer", essas coisas... Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão...

- Mas... A solução seria...

- Solução? Não há mais solução, cara... A própria idéia de "solução" já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios...). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psico-social profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível.Não há solução.

- Você não tem medo de morrer?

- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... Mas eu posso mandar matar vocês lá fora... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado n’uma vala... Vocês, intelectuais, não falavam em luta de classes, em "seja marginal, seja herói"? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... Mas, meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse País. Não há mais proletários ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas "com autorização da Justiça"? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

- O que mudou nas periferias?

- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$ 40 milhões, como o Beira-Mar, não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no "microondas"... ha, ha... Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

- Mas o que devemos fazer?

- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas... O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, "Sobre a guerra". Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... P’ra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também "umazinha", daquelas bombas sujas mesmo... Já pensou? Ipanema radioativa?

- Mas... não haveria solução?

- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a "normalidade". Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... Na boa... Na moral... Estamos todos no centro do insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês... Não tem saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabe por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: "Lasciate ogna speranza voi che entrate!" Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.

21.6.06

Burocracia...

Eu, na qualidade de ser humano pensante, que aceita viver em sociedade, me permito procurar uma constituição para meu mundo. Procuro uma constituição que seja um instrumento de garantia para todos os seres vivos e para o meio-ambiente. Que lhes garanta a sua integridade, preservação e seu desenvolvimento, em condições de dignidade, na qualidade de seres materiais e espirituais. Uma lei que preserve a liberdade, não apenas no sentido formal ou físico, mas cultural, espiritual e também moral. Procuro uma constituição que limite tais garantias apenas nelas mesmas, quando exercidas por outro ser ou mesmo pelo meio-ambiente. Que prescinda de leis regulamentadoras, uma vez que é bastante clara e profunda em si. Que não deixe a coletividade suprimir a individualidade, e que, também, não deixe o inverso ocorrer. Que tenha a solidariedade como meio para que se atinja uma sociedade que tenha o amor como valor fundamental, para que este possa se tornar, desde logo, fim e meio de fundamentação de qualquer discurso. Que seja aplicável desde a data da sua publicação e revogue todas as disposições em contrário.

15.6.06

Movimento

me pergunto, mas não respondo
ando, viajo,
fujo, procuro
encontro

perco, esqueço
desato, me animo
amarro

luto com força
venço e me dou conta
de que ainda é o começo
sempre

e que o fim...
é o movimento

7.6.06

"Violência contra a democracia"

Sensacionalismo, hipocrisia ou defesa de interesses?
...
O Jornal Hoje, da Rede Globo, começou hoje da seguinte maneira: "tudo sobre o atentado à democracia, ocorrido em Brasília". O outro repórter anunciava, em seguida, para a outra câmera: "tudo sobre o aniversário do capitão Cafu, direto de Königstein, na Alemanha".

Realmente, é muito difícil falar alguma coisa, sobre coisas tão óbvias. O congresso nacional é um antro que concentra os maiores ladrões deste país. Os bandidos mais perigosos que este país possui não estão em presídios, comandando ações terroristas através do telefone celular. Estes são os mais inofensivos (em larga escala) Os mais perigosos estão no congresso nacional, desviando fortunas do dinheiro público. Isso nem é o pior... Eles possuem legitimidade "democrática" para criarem leis. E negociam, através das cegas, surdas e mudas leis do mercado sua capacidade de proteger juridicamente interesses econômicos (quando deveriam estar defendendo interesses sociais). Compra-se leis, elege-se deputados.

Parece óbvio que o poder legislativo brasileiro defende interesses privados. De tão óbvio, me sinto meio ridículo, repetitivo. Será que alguma pessoa razoável poderia dizer que isso não é verdade? Parece óbvio que o congresso nacional representa uma elite, tanto latifundiária, quanto industrial, nacional ou internacional. Uma verdadeira aristocracia, que comanda o país há muito, muito tempo. De diversas maneiras. Parece óbvio que nossa democracia é ridícula.

No Brasil, graças à influência da escola de Exegese (que defende a estrita e literal aplicação das leis) um deputado sendo processado por corrupção, pode renunciar ao seu mandato, para não correr o risco de ser cassado e ficar inelegível por oito anos. Caso não renuncie, antes de ser julgado pela "justiça" (representada aqui pelo poder judiciário), o deputado será julgado pelos seus próprios companheiros, através do voto secreto. É o que a televisão chama (com muito bom humor, diga-se de passagem) de pizza.

Tudo "acabar em pizza" não é, para a grande mídia, um atentado à democracia tão grande quanto o ataque do Movimento de Libertação dos Trabalhadores Sem-Terra, ocorrido ontem. O que é pior?

Numa "democracia" representativa, onde o voto é obrigatório e a grande maioria dos eleitores trocam seu "direito/dever" de votar por uma camiseta, prato de comida, ou algum prazer ainda mais efêmero, a massa sequer lembra do nome do último candidato em que votou. Sequer sabe que as leis devem ser feitas pelo povo e para o povo, através de seus representantes eleitos. Pelo menos em tese...

Num país onde 50 milhões de pessoas são analfabetas, qual é o pior atentado à democracia? Um representante que não representa a população ter a certeza da impunidade ou um grupo que se rebelou contra isso?

Arrisco-me a dizer que o problema maior do nosso país é um problema de interpretação. Talvez um vício. Temos uma constituição que se fundamenta na dignidade da pessoa humana. Esta constituição norteia, delimita, dá sentido, para toda a atividade legislativa, executiva ou judiciária.

As leis devem ser feitas sempre na direção da dignidade da pessoa humana. Mesmo que se tenha que eventualmente optar por tal fundamento em detrimento de outros princípios, como o da livre iniciativa, por exemplo. O sistema só se concretiza se obedecer os caminhos apontados pelos valores que dão sentido, vida, à constituição.

As decisões judiciais podem (e devem!) ignorar leis que obstruam os fins axiológicos eleitos pela carta constitucional. O juiz deve afastar do caso concreto qualquer norma que seja contrária aos valores expressados na nossa constituição. Da mesma forma, devem ser instruídas as atividades do poder executivo.

Uma análise histórica leva ao entendimento de que o Estado liberal, fundamentado principalmente nos valores da Revolução Francesa, tendo a liberdade como centro axiológico, se converteu ao que chamamos de Estado social.

Não é minha opinião. A mudança de paradigmas é praticamente pacífica entre os estudiosos do assunto. Da liberdade (com toda a sua carga axiológica), passamos para a dignidade. Claro que se trata de conceitos abstratos, mas é importante que se compreenda o seu verdadeiro sentido. Não pela simples análise do significado desta palavra, mas pela compreensão dos sentimentos que ela expressa. Das conquistas históricas que ela reflete... Pela compreensão do que sentem as pessoas que não possuem dignidade, que nascem longe disso.

Está na hora de colocarmos as coisas numa balança. No uso da minha liberdade de expressão, aplaudo a brava atitude dos manifestantes, mas sigo com indagações... Quais interesses estaria defendendo a mídia ao condenar veementemente a atitude do MLST e agir com tanta naturalidade diante das absolvições constantes de deputados claramente envolvidos em corrupção? Porque a mídia apoiou tão incondicionalmente a Aracruz no caso das mulheres da via campesina e MST? Porque nem falaram das barbaridades que a Aracruz fez contra os índios do Espírito Santo, destruindo completamente as aldeias das tribos Tupinikin e Guarani? Porque não falaram sobre os enormes danos causados pela monocultura de eucaliptos? Porque? Porque?

Quais são os interesses da mídia? Me pergunto. Ouso perguntar. Quem estaria lutando pela dignidade nesta história toda? Quem teria razão? Mais ainda, o que seria a razão? Existe razão? Seria a razão absoluta, divina, ou uma construção humana? Existe o razoável?
Enfim... Quem sabe deixemos este assunto tão chato pra depois da copa do mundo? Melhor, né... Salve a seleção! Viva o panis et circenses!!! Viva o Hexa!
Porto Alegre, 07 de junho de 2006.

11.4.06

O peso de uma camisa

Faz tempo que o Grêmio não é mais favorito para nada. Uma fria análise lógica levaria qualquer especialista a prever uma crise gigantesca no Monumental após a administração do ex-presidente, Flávio Obino, que culminou no rebaixamento para a segunda divisão do campeonato brasileiro, em 2004.

A situação financeira do clube não possibilitaria a contratação de reforços de renome e as verbas recebidas eram cada vez menores. Enfim, estavam presentes quase todos os ingredientes para uma crise sem precedentes. Quase todos... Faltava apenas um: resignação. Nós, gremistas, somos doentes. Criamos uma realidade paralela, onde nada nos abala, nem mesmo uma derrota. Somos obcecados pelo campeonato mundial, título máximo que um time de futebol pode conquistar.

Criamos uma lógica própria, que não admite jamais a resignação. Lutamos sempre por nossas vitórias e também por nossas derrotas. Podemos ganhar ou perder com a mesma reação. O que importa no Olímpico não é mais o resultado, mas a garra presente em cada atleta que veste o nosso glorioso manto imortal.

Ao Grêmio, meus amigos, nenhuma lógica tradicional pode ser aplicada. Nossa paixão inverteu a lógica. Por isso, nossa camisa sempre exigiu respeito por parte dos adversários. Sempre fomos temidos, não só por causa dos nossos jogadores, mas pelo peso do nosso manto imortal.

Sei que isso tudo pode parecer demagogia, mas convenhamos... Será que alguém ainda tem dúvidas sobre a imortalidade do tricolor? Depois daquele desfecho épico no ano passado, nada mais pode nos derrubar. Temos o poder de transformar qualquer diamante em pedra sem valor. E fazer nossas pedras virarem ouro.

Jamais temer: esse é, sem dúvida, o mantra, o lema, o refúgio da nossa torcida. Um time que jamais teme deve estar pronto para vencer ou perder sem, no entanto, nunca perder o amor e a paixão. Deve saber que as derrotas acontecem e, principalmente, que as vitórias também. E acontecem das mais diversas maneiras.

Foi assim no clássico GRENAL que decidiu o gauchão deste ano. Jogávamos contra um time que se proclamava o “todo poderoso”, com seus falsos diamantes de vidro. Um time que está completamente embriagado pela possibilidade de chegar perto de um inédito título internacional, para, ao menos, fazer jus ao nome que ostenta.

Os dois GRENAIS deste campeonato foram marcados pela luta de um time limitado tecnicamente, mas aguerrido e viril, contra um time teoricamente superior que treme as pernas cada vez que ouve falar em decisão. Um time comandado por um especialista em perder decisões contra um time que acredita sempre na sua força, pois já inverteu a lógica do futebol e não mais teme nenhuma derrota. Um grupo de estrelas contra uma estrela de grupo.

Mais uma taça no armário! Como é bom comemorar mais um título, ainda mais quando a taça é levantada na casa do adversário, mediante um esforço extraordinário de nossos guerreiros.

Ao glorioso tricolor, meus sinceros agradecimentos.

Porto Alegre, 10 de abril de 2006.

27.12.05

Drogas

Não sou nenhum cara erudito. Escrevo pela beleza, pelo prazer. De que adiantaria eu medir forças com pessoas que vivem para os livros, que nasceram para discutir, conjugar e propagar teorias, se tenho minhas próprias idéias efervescendo, em tempo mais do que real? Além do mais, não tenho paciência nem motivação para uma competição deste tipo, pois não acredito em vencedores e vencidos. Meu senso de humor não é inglês.

Vivo num país subdesenvolvido. E mesmo que fosse desenvolvido, o problema não estaria solucionado. Para que hajam vencedores, é necessário que hajam vencidos. Essa é a lógica do nosso mundo, tanto nas favelas quanto na Academia. Vivo num mundo subdesenvolvido. Cheio de ricos pobres.

(Pobres ricos podres, podres pobres ricos!)

Minha humildade se confunde com soberba, mas como nenhuma idéia tem dono... Fico com ambos os títulos. Tenho o benefício da dúvida (estaria eu a defender-me exegeticamente, com base em um princípio egoísta?).

A alienação é geral. O que muda é a natureza do ópio.

Uns se chapam com a banda Kalipso, outros com Beethoven. Uns tomam altas doses de Shakespeare, outros de Diário Gaúcho. Será que somos livres para escolher nossas drogas?

Decidimos entre as possibilidades que temos (ou que acreditamos que temos). Acho que o problema surge nas possibilidades propriamente ditas e é potencializado pela crença. Um exemplo? Neste momento escolho se leio algum livro, vou dormir, vejo televisão... Mas se eu acreditar mesmo vou dar uma volta pela cidade, pelo estado, pelo país. Ou pelo mundo! Se eu quiser, escrevo estas palavras. Minhas condições materiais me dão alguma liberdade imediata, embora seja minha crença o diferencial que pode levar-me à infinitos fins.

Enquanto escolhemos nossas drogas (de ricos ou de pobres) e perdemos nosso tempo discutindo quem tem as melhores idéias, as coisas acontecem. Muita gente encontra-se, neste momento, diante de amargas possibilidades, bem diferentes das minhas. E não adianta essas pessoas acreditarem em coisas mirabolantes, pois o estômago é sincero. Quanta gente está tomando decisões neste momento? Uns dormem, outros estudam, outros escrevem algo.

Muita gente se prostitui, rouba ou discute cinema francês.

Cada um com suas drogas.

14.12.05

O nosso tempo

Cada vez que pensamos, organizamos nossas idéias de uma maneira cronológica, estabelecendo uma seqüência de fatos, de tal maneira que só nos é aceitável porque a vemos de uma forma cíclica. Nos acostumamos a ter um conceito vago e limitado sobre o infinito. O dia começa, o sol nasce, chega o meio-dia, vem a tarde, cai a noite, escurece... Depois começa tudo outra vez. E assim passamos o tempo, assim estamos presos ao tempo. A semana passa de forma contínua, repetindo-se sempre os mesmos sete dias, todos com 24 horas (aproximadamente). Porque, então, que às vezes temos a impressão de que o tempo está passando mais rápido ou devagar? Porque trabalhar uma hora é mais demorado do que descansar?

Todos nós pensamos em viver por muitos anos. Mas dependendo de como estes anos forem vividos, teremos vivido uma “curta” vida longa ou uma “longa” vida curta, dependendo da intensidade com que passamos os momentos que compõe o nosso tempo.

Uma semana pode durar mais do que um mês, e um mês pode passar mais rápido que uma semana. Os anos, para a maioria das pessoas, passam cada vez mais rapidamente, na medida em que crescemos e envelhecemos. O que ocorre é que com o desenvolvimento de determinados conceitos em nossas mentes, nos acostumamos mais e aceitamos a seqüência cíclica de momentos, de modo que estes se tornam apenas continuações de algo que já tenha sido começado, e que não pode, desta maneira, ser inteiramente (ou intensamente) vivido.

O curioso é que temos todos livre acesso à este que é o maior e melhor instrumento da natureza: o tempo. Independentemente da atividade que exerçamos, do dinheiro que tenhamos, das coisas que possuamos, das pessoas que amemos, temos o nosso próprio tempo, que é único, exclusivo e individual!

Temos também a faculdade de controlá-lo da maneira que nos for conveniente, basta acreditarmos em nossas mentes como o nossa maior ferramenta, nossa maior arma.

Não é porque estamos envolvidos com alguma coisa que realmente não gostaríamos de fazer que não podemos aproveitar este tempo. Até mesmo o trabalho mais mecânico e repetitivo pode tornar-se uma coisa agradável... Cada momento deve ser vivido sempre da melhor maneira possível, pois será único. E se abrirmos nossos corações para o melhor que o tempo tem a nos proporcionar, viveremos muito mais de cem ou duzentos anos. Teremos vencido os conceitos cíclicos do tempo, aproveitando-nos do melhor que ele pôde proporcionar-nos.

Os segundos, minutos e horas permanecerão marcando o que sempre entendemos como tempo, mas não precisamos seguir vinculados à estes conceitos. Porém, o fato é que por mais que saibamos dessa verdade, o mundo “real”, o mundo dos ciclos, é demasiado persuasivo e nos faz acreditar em valores e princípios que não pertencem à nossa própria essência.

Tais valores são os artifícios que nos alienam e impedem-nos de viver plenamente, atingir o estágio de evolução e aproveitamento mundano, o qual vulgarmente chamaríamos de felicidade.

Somente estaremos prontos para receber tudo o que temos de melhor, uns para com os outros, quando valorizarmos mais intensamente os momentos, as pequenas decisões que subsidiam as nossas grandes atitudes.

Um problema só poderá ser assim chamado porque para ele existe uma solução. Nesse caso, buscaremos o melhor caminho para resolve-lo. Caso não exista uma solução, não existirá problema, logo temos de aceita-lo como fato, da maneira mais natural e razoável.

É certo que nossa maior busca como seres humanos é e sempre será atingir um estado de serenidade mental, auto-conhecimento e, principalmente, aceitação. E que, para tanto, devemos abrir mão de alguns de nossos valores usuais. Dificilmente aceitaríamos passiva e serenamente uma doença em nossa família. Ficaríamos remoídos por um sentimento de indignação e injustiça tão forte, que chegaríamos ao ponto de sentirmos raiva de tudo o que nos cerca. E que isso somente traria mais dor e sofrimento, e ainda, geraria uma propensão à acontecimentos ruins, através de uma canalização de pensamentos e energias em determinado sentido que vai ao encontro de nossos objetivos de paz interior.

Por isso, é imperativo que não deixemos acumular questões mal resolvidas em nossas vidas. Nosso dia é composto por infinitos momentos, que numa noção cronológica se passam dentro de vinte e quatro horas. Dentro desse conceito, imaginemos quantas são (em quantidade e importância) as pequenas decisões que temos que tomar no decorrer de um dia. Cada movimento que fazemos com nossos corpos é resultado de uma decisão. Cada palavra que falamos também é resultado de uma (ou uma seqüência) de eleições, como certo e errado, sim ou não, ser ou estar...

Para que possamos desfrutar de o que nossas vidas têm de melhor a proporcionar, para que aproveitemos nosso tempo em cada momento, e para que atinjamos tal nível de espiritualidade onde sejamos pessoas puras e prontas umas para as outras, é decisivo que tenhamos tomado as pequenas decisões corretamente e que valorizemos os detalhes da vida. Mais do que isso, que possamos enxergar a beleza das coisas escondidas em pequenos momentos, em coisas singulares e ordinárias, na simplicidade de conseguirmos “ser” ao invés de “estar”, sem, no entanto, preocuparmo-nos com a diferença. Que tenhamos sabedoria para discernir o que pode ser resolvido do que não pode, bem como a maneira ideal para resolvermos cada situação com a qual deparar-nos no decorrer de nossas existências.

Que tenhamos sempre a serenidade para aceitar a natureza das coisas, da maneira em que melhor possamos desfruta-las, de modo harmônico, sempre em benefício de um todo, buscando um equilíbrio que é maior que qualquer coisa que se possa imaginar, maior que todas as nossas noções viciadas, simplesmente algo que não poderemos compreender de outro modo senão do abstrato, o que é, por natureza, o desafiador.

Da mesma forma que não conseguimos sequer compreender o tempo, muito menos a natureza, seria um tanto quanto pretensioso querer compreender, de um modo matemático, a humanidade, uma vez que até mesmo nossas próprias mentes são, para nós mesmos, como campos desconhecidos, os quais poderíamos passar toda uma existência desbravando, que, mesmo assim, não conheceríamos sequer o suficiente para prestar informações à alguém que nele estivesse perdido.

“To be continued...”

Paulo Renato Vitória, abril de 2003.

28.11.05

Lara, o craque imortal...

Depois de tudo o que já se falou, tudo o que já se escreveu, fica meio difícil ter alguma coisa nova a declarar sobre o que aconteceu sábado em Recife, na - agora mundialmente famosa – “Batalha dos Aflitos”... Difícil porque até aqueles gremistas que nunca foram no Monumental, ou mesmo torcedores de outros clubes já falaram, gritaram, cantaram, escreveram ou comentaram quase tudo o que se podia sobre o ocorrido...

O que dizer então? Eu que fui em todos os jogos do Grêmio em casa e assisti a todos fora, certamente teria algum comentário, alguma observação inédita a fazer... Mas não tenho. Acho, inclusive, que tudo o que se está a falar é mentira, fruto de uma grande alucinação criada pelo inconsciente coletivo. Devido à grandeza do Grêmio, à sua história de pelejas indescritíveis pelo mundo afora, o país inteiro se recusou a acreditar que fosse acontecer um desfecho tão dramático e propagou uma onda de pensamento tão forte, mas tão forte, que acabamos criando um epílogo imaginário à altura da tradição deste clube de futebol que hoje estamos a contemplar. Um final tão surpreendente que nem mesmo o mais otimista dos torcedores poderia acreditar. Daqueles que o escritor mais cara-de-pau não teria coragem de dar para seu conto, seu romance.

Tipo aqueles filmes de final surpreendente. Daqueles que chega a dar até raiva do diretor, que faz todos de palhaço durante o filme inteiro... Pois é, por mais que o jogo do Grêmio fosse um filme e me fosse contado o final antecipadamente, eu dificilmente acreditaria. Não tem como acreditar! Pensem só: seis na linha e um no gol, na casa do adversário, lotada. O adversário precisando de apenas um gol para voltar para a primeira divisão, depois de onze anos de amarguras. O jogo mais importante da história do Náutico.

Um pênalti contra, um juiz prometido, uma polícia violenta. Uma taça sendo erguida pelo Santa Cruz. Pernambuco em festa. Uma corrente vermelha aguardando o chute, aos sessenta minutos do segundo tempo. Uma história recente de escândalos no futebol, dentro e fora dos gramados. Um manto sagrado em campo.

Em todos os momentos decisivos, o manto tricolor é o maior refúgio da torcida gremista. Nada pode ser maior, nem mais sagrado! Um alento para qualquer coração aflito. Um porto seguro para qualquer preocupação, qualquer hesitação. Nada pode ser maior!

Lara, o craque imortal, não pôde de tanta emoção. Ele saiu de onde estava e invadiu o corpo do Galato. Isso mesmo! Lara encarnou no Galato, acreditem ou não! Lara pegou o pênalti!

O jornal inglês Times chegou a chamar o Grêmio de “Fight Club” (se referindo ao filme Clube da Luta). Parece que eles sabem que enquanto estiver em campo o manto tricolor, a esperança existe! Quem veste essa camisa, sua sangue, transpira garra e exala paixão! Somos assim, diferentes. Nossa torcida é diferente, nosso time também. Nunca desistimos. Nunca nos entregamos. Nunca colocaremos narizinho de palhaço.

Estou quase acreditando no que aconteceu. Se for verdade, acho que a direção do Grêmio deveria mandar bordar mais uma estrela na camiseta, de cor azul celeste, simbolizando a maior batalha da nossa história.

Obrigado Grêmio!

24.11.05

A batalha dos Aflitos

Yo soy toro em mi rodeo
y torazo em rodeo ajeno;
siempre me tuve por güeno
y si me quierem probar
salgan otros a cantar
y veremos quién es menos
”.
(Martín Fierro, de José Hernandez)

Escrevo este texto à todos aqueles que acompanharam, seja torcendo, seja secando, o Grêmio Football Portoalegrense em sua árdua trajetória ao longo das últimas temporadas, que veio a culminar nesta tensa semana de maravilhosas angústias, à espera da batalha final: a batalha dos Aflitos. Como é bom estarmos às vésperas de uma decisão! Um clube que já foi campeão do mundo, bi-campeão da Libertadores, quem diria, lutando com todas as forças para poder voltar à “elite” do futebol brasileiro... Mas o que seria a verdadeira “elite”? Será que estar na primeira divisão é pertencer à elite?

Juro que prefiro estar decidindo uma segunda divisão a disputar um campeonato morno, onde apenas dois ou três times têm chances de conquistarem o título. Hoje, Grêmio, Santa Cruz, Náutico e Portuguesa são muito mais “elite” do que noventa por cento dos clubes da série A. Ademais, a fórmula da série A é muito chata. Dificilmente seremos campeões em um campeonato de pontos corridos.

A tensão desta eletrizante segundona é tão grande, que não durmo direito nenhuma noite desde que o quadrangular final começou. Já sonhei que o jogo contra o Santa Cruz havia começado e eu não conseguia chegar ao Monumental... Que o Márcio Rezende veio apitar o jogo do Grêmio para compensar o que fez para o Inter... Essas coisas de quem está respirando ares futebolísticos vinte e quatro horas por dia, lutando contra a aflição.

Divergindo da maioria da torcida gremista, que acha que o Grêmio nunca deveria ter caído para a segunda divisão, penso que a queda para a série B foi de grande importância para a nossa história, para o nosso futuro. O rebaixamento significou um cutucão no nosso orgulho. A força com que nossa torcida empurrou o tricolor até o final do campeonato foi, sem dúvida, uma das maiores demonstrações de grandeza de um clube de futebol nos últimos tempos. Cheguei a quebrar um dedo numa das avalanches do último jogo, tamanha fora sua força! Nossa torcida mostrou ao Brasil inteiro, mais uma vez, como se deve encarar um momento difícil. Mostramos a todos porque somos guerreiros, porque somos farrapos.

Somos farrapos porque nosso plantel segue extremamente limitado, porque saímos dos holofotes da imprensa “global” e da primeira divisão e nem por isso deixamos de lotar o Monumental para ver nosso time jogar, com todas as suas limitações, honrando o sagrado manto tricolor com muita raça. Somos farrapos porque disputamos um campeonato sério, honesto e muito competitivo, contra times humildes, de todas as partes do país, em busca de um lugar ao sol. Nunca tivemos tanta força para lutar! Nossa garra está compensando a falta de qualidade técnica, mais uma vez. Nossa paixão ignora completamente a natureza da competição. Queremos vencer, precisamos vencer! Nada mais importa!

Nesse clima de decisão e de aflição, o povo nordestino está prometendo uma verdadeira guerra contra nós, gaúchos, e contra os paulistanos da Portuguesa, em duas batalhas simultâneas: a dos Aflitos e a do Arrudão. A nossa, curiosamente, é a dos Aflitos. Se não vencermos tal batalha nem subirmos para a primeira divisão neste sábado, seguirei amando e acompanhando meu Grêmio, onde ele estiver! Ganhando ou perdendo, chorando ou sorrindo... Além do mais, a segundona não foi tão ruim assim para nós, que realmente amamos o Grêmio e vamos ao estádio em todas as partidas. Não tenho mais medo da segunda divisão!

Todavia, se vencermos o clássico GRE-NAU deste sábado, a batalha dos Aflitos, a festa aqui em Porto Alegre será tão grande, mas tão grande... Falam até em feriado municipal... Estaremos conquistando o inédito título de campeões brasileiros da série B, o que seria, sem dúvida, a maior demonstração de grandeza da nossa história. Me arrisco a dizer que a batalha dos Aflitos é a mais importante de toda a história do Grêmio. Seria a glória!

Força Grêmio!

12.11.05

Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito

Há muito tempo, ando observando todas as coisas à minha volta com uma maior atenção, com uma inevitável reflexão acerca de tudo o que acontece ao meu redor. Talvez seja apenas reflexo do momento que estou vivendo, cheio de questionamentos e descobertas. Não que eu não fosse extremamente crítico desde criança, mas é notável que nos últimos tempos tenho pensado demais, e meus choques estão sendo cada vez maiores, na medida em que desenvolvo meus pensamentos, os quais, quase sempre chegam ao mesmo ponto: o desânimo e a descrença.

Tive, na tarde de ontem, uma experiência que quase todos os cidadãos, pelo menos uma vez na vida, são obrigados a ter: o contato direto com o Poder Judiciário. Claro que, no meu caso, uma vez que sou formado em direito, a sala de audiências não é nenhum território desconhecido. Já devo ter presenciado umas vinte audiências durante minha faculdade. Algumas vezes, inclusive, como parte.

No caso de ontem, estava ajudando meu padrasto com uma ação de cobrança de alugueis contra o ex-inquilino de um de seus imóveis. Conhecido como pessoa extremamente generosa, meu padrasto somente resolveu entrar com tal ação porque o locatário separou-se, deixando sua ex-esposa e filha pequena no imóvel, para viver sua vida, sem prestar-lhes nenhum auxílio, deixando os aluguéis atrasados acumularem como uma bola de neve.

Disse meu padrasto, inclusive, que doaria quaisquer valores recebidos no processo para uma instituição de caridade, deixando bem clara a sua sede pela justiça, não no sentido financeiro, como estamos acostumados a ver, mas no sentido moral. Queria ele, de certa forma, e por motivos pessoais, punir aquele que deu as costas à ex-esposa e filha. Tinha razão para ganhar o processo. O imóvel estava locado e os aluguéis não estavam sendo pagos. Tinha provas suficientes. Nem precisaria doar o dinheiro oriundo da cobrança, pois estava clara no processo a inadimplência do “réu”. Gastou, ainda, cerca de quatrocentos reais, entre custas e despesas processuais, com o único propósito de punir a conduta moral de seu ex-locatário.

Foi designada audiência, pelo excelentíssimo e distinto senhor doutor juiz de direito da comarca responsável. Como não tenho a carteira da OAB, levei um amigo advogado para representar oficialmente “meu cliente”.

Iniciada a cerimônia, com o pregão realizado nos corredores do foro, onde outros “litigantes” aguardavam a sua vez, as partes, munidas de seus respectivos advogados, entraram no templo sagrado do Poder Judiciário, onde o nobre magistrado os aguardava, com toda a sua arrogância.

Havia, como de praxe, uma mesa mais alta, semelhante a um pódio de competições esportivas, onde o local mais alto é ocupado pelo digníssimo doutor juiz e os laterais, que seriam para o segundo e terceiro lugares, porém ambos da mesma altura, são ocupados pelo estenotipista e pelo oficial ajudante (por vezes um estagiário). Diante do pódio, porém no nível do chão, havia uma mesa com duas cadeiras de cada lado, no sentido vertical com relação ao pódio, diante deste.

Tradicionalmente (não me perguntem por que motivo), a cerimônia é realizada com o advogado da parte autora, acompanhado de seu cliente, sentados do lado direito do excelso juiz e o réu e seu procurador, no lado esquerdo. Todavia, o sábio magistrado que conduzia a audiência fez questão, inclusive, de fazer as partes trocarem de lugar com seus advogados, uma vez que o local mais próximo ao pódio deve ser ocupado pelo advogado, e não pelo cidadão. Imaginei, entretanto, que tal mesa seria como uma extensão do pódio e o local reservado para as pessoas comuns seria o mais baixo de todos. O mais afastado do topo. Principalmente o ocupado pelo réu, pela sua possível situação de desconforto por estar sendo processado, do lado esquerdo.

Primeiramente, o advogado do réu ofereceu, como proposta de conciliação, oitocentos reais, o que foi negado pelo meu padrasto, que queria a condenação integral, que perfaz cerca de dois mil reais. Apesar de ele já haver declarado que doará tal valor, seu íntimo desejo de justiça o disse para ir até as últimas conseqüências na punição integral do réu.

Depois, colhido o depoimento do meu padrasto, que pediu para fazer algumas considerações importantes, sobre questões que não foram levantadas pelo magnânime juiz. Sua resposta foi a seguinte: “Não”. Fiquei me perguntando: porque não? Se ele havia dito que seria importante... Será que é apenas o juiz que decide o que é importante?

Enfim, meu amigo advogado fez uma pergunta para meu padrasto, para que ele pudesse fazer suas “considerações importantes”, e, quando ele estava começando a responder, o juiz disse para parar tudo, pois as perguntas deveriam ser dirigidas à pessoa do juiz, que, por sua vez, as repetiria ao meu padrasto. Confuso, meu colega seguiu perguntando ao meu padrasto diretamente (até porque a pergunta era para ele), motivo pelo qual sua atenção foi chamada inúmeras vezes pelo excelentíssimo senhor doutor juiz, que parava a cerimônia com uma crescente irritação e arrogância, toda vez que uma pergunta era feita sem seu intermédio, semelhante à um professor primário, chamando a atenção de seus alunos.

Sentado ao meu lado, com um livro do Platão à tira-colo, estava o estagiário do advogado réu, que devia ter uns trinta e poucos anos e, a exemplo do que acontecia comigo, sabia mais sobre o processo do que o advogado “oficial”. Ele tinha previamente formulado perguntas para as partes e testemunhas e pediu ao juiz para fazê-las, identificando-se como estagiário de direito. O juiz respondeu que não. Na sala “dele”, estagiário não pode falar nada oficialmente, mas pode passar as perguntas para que o advogado as faça.

A situação se tornou bastante ridícula: O estagiário fazia as perguntas ao advogado, em voz alta. O advogado repetia as perguntas ao juiz. O juiz, por fim, repetia as perguntas às testemunhas, sendo que estas escutavam a pergunta desde a sua formulação inicial, pelo estagiário. Patético. Como se não houvesse mais nada para fazermos senão alternarmos brincadeiras infantis, ora chefe-manda, ora telefone-sem-fio, na sala de audiências. Como se não houvesse milhares de processos para serem julgados, milhares de pessoas em busca de justiça, tendo que aguardar anos para que decisões simples sejam tomadas.

Uma pena estarmos perdidos em meio a um formalismo exacerbado que enaltece a figura de um cidadão prepotente, arrogante e ridículo que ocupa o mais alto lugar no pódio da justiça.

Foi chamada a ex-esposa do réu para prestar seu depoimento, o qual, formalmente, não serve de testemunho por se tratar de pessoa que possui relação direta com uma das partes. Figura ela no processo como mera informante, nos termos da legislação vigente. Ela foi confusa e declarou que não deve nada ao meu padrasto, provavelmente ameaçada pelo ex-esposo de que teria ela que pagar a dívida, caso perdessem a ação. Mentiu, também, que tem uma amiga, a qual testemunhou seus pagamentos ao meu padrasto, que teria, supostamente, negado recibos a ela.

A amiga, por sua vez, curiosamente não pode comparecer à audiência e foi pedido para que fosse marcada uma nova data, para sua oitiva. Desta forma, foi designada nova audiência, para março do próximo ano, apenas para que se ouça como testemunha uma pessoa que nunca viu meu padrasto, que irá até o Poder Judiciário prestar seu falso testemunho, uma vez que a nossa justiça admite.

Não adiantaria nada falarmos isso ao juiz, pois, primeiramente, não tínhamos permissão para falar nada que o chefe não mandasse. Em segundo lugar, ele poderia não acreditar.

Assim, teremos de aguardar mais cinco meses para podermos começar a esperar uma sentença, que pode demorar mais bastante tempo. Na melhor das hipóteses, teremos uma decisão de primeiro grau no final do ano que nem começou ainda, mais de dois anos depois da propositura da ação.

Fiquei me perguntando algumas coisas do tipo: será que o juiz pode acabar com esse burro formalismo legal? Vou dar duas respostas: uma na qualidade de jurista e outra na de cidadão: Minha resposta como jurista é a seguinte: Sim, e por meio da própria lei. Acontece que no núcleo do sistema jurídico brasileiro existe uma constituição. Essa constituição é maior do que todas as demais leis e está baseada em princípios, entre os quais, recentemente implantado expressamente o direito à celeridade processual. Mesmo que não estivesse expresso, haveria um princípio estruturante do Estado Democrático de direito, que é o da dignidade da pessoa humana, que o abarcaria, sem dúvida.

Minha resposta de cidadão também foi positiva, mas por outro fundamento, simples e do alcance de todos: bom-senso. Não só para decidir o processo na audiência, o que muitas vezes seria perfeitamente possível, mas para acabar com a cerimônia ridícula que gera uma enorme perda de tempo e afasta as pessoas “comuns” da esfera pública, tornando-as meros coadjuvantes de uma história onde deveriam atuar como protagonistas.

Na realidade, as duas respostas se complementam. A do jurista e a do cidadão. Afinal de contas, a justiça é feita por quem e para quem? Não seria por e para o legítimo dono do poder, que é o povo? O jurista ou o cidadão? Não seriam os dois igualmente membros do que chamamos de povo? Será possível que ainda, em uma democracia, existam os “donos da justiça”?

O excelentíssimo senhor doutor juiz de direito e todo o seu poder simbólico precisam, urgentemente, ser eliminados da nossa vida! Comecemos pelo vocabulário. Falemos o português dos 50 milhões de analfabetos! Falemos o português dos milhões de desempregados ou dos oitenta por cento da população brasileira que vive abaixo da linha de pobreza! Precisamos é de justiça feita pelo povo e para o povo e não desses semi-deuses arrogantes, como o que conheci ontem.

7.11.05

Grêmio Copeiro!

O final do ano se aproxima em alta velocidade e eu me sinto cada vez mais despreparado para a sua chegada. Preciso escrever muitas coisas e não consigo. Não sei qual é o problema, mas o fato é que estou passando por uma dificuldade de expressar por escrito minhas idéias. Talvez não esteja assim tão seguro delas mesmo. Ou então, me falta atitude, motivo pelo qual sento diante do computador mais uma vez, em busca de um momento (por mais breve que seja) de inspiração. Talvez seja como desenrolar um nó górdio, onde o primeiro passo seria encontrar a ponta do fio, para começar a desemaranhar o novelo inteiro. Nesse intuito, creio que convém começar falando um pouco sobre o meu time, que é um dos assuntos que mais detém minhas idéias ultimamente. Ademais, temos – eu e o tricolor – muitas características em comum mesmo.

Como sabemos, o Grêmio passa por um momento muito delicado no Campeonato Brasileiro, pois precisa vencer ainda duas partidas, entre três, para garantir o retorno à “série A”. Acho que, para nós gremistas, as coisas sempre acontecem com mais emoção. Estamos sempre nos aventurando perto do tênue limite entre a glória e o fracasso, entre o sucesso e a sarjeta. É na sarjeta, aliás, que passamos os últimos tempos e provavelmente passaríamos os próximos dez anos se não fôssemos extremistas. De que adiantaria termos nos livrado do rebaixamento se nosso clube estava todo desorganizado. De que adiantaria passar mais dez anos sem cair para a segunda divisão nem ganhar mais um campeonato mundial? O tratamento de choque é a única maneira de fazer com que meu time se encontre. No final de semana passado, por exemplo, estávamos muito perto de conseguir uma importante vitória fora de casa, mas não deu. Perderia a graça.

Como bom gremista, tenho que admitir que também “funciono” da mesma maneira. Inclusive, ganhei o debochado apelido de “Sr. Última Hora” na faculdade, por causa dos meus trabalhos entregues para o professor “aos 48 minutos do segundo tempo”, em “condição duvidosa”, mas sempre com muita raça. Tais trabalhos realmente eram chatos de se fazer e acho que não teria paciência para fazê-los novamente. Aliás, a maioria dos trabalhos acadêmicos são baseados em métodos que não valorizam o pensamento. Lê-se uma pilha de livros tolos, recheados de palavras difíceis, com páginas e mais páginas dedicadas à fundamentação de idéias tão óbvias que poderiam ser sintetizadas em menos de meia página. Não que eu seja contra a argumentação... Mas por favor!

Enquanto, em tempos atuais, fala-se muito em “ética do discurso”, “auditório universal” e outros tantos termos “filosóficos” que buscam colocar a palavra como fator gerador de consensos e de resolução de conflitos, tais teorias e discussões dificilmente saem dos corredores das universidades, onde, na verdade, o que se vê é uma batalha individualista de todos os membros da Academia por um “lugar ao sol”. Uma espécie de corporativismo intelectual. A grande maioria vê-se obrigada a abdicar do direito de pensar livremente sobre o que quiser, para que possa adaptar-se às linhas de pesquisa oferecidas pelas universidades, que, por sua vez, são desenvolvidas por professores que também tiveram de seguir as “linhas” vigentes no momento de seu ingresso. O acesso às idéias propriamente ditas acaba ficando restrito aos poucos que possuem paciência e ambição suficientes para passar horas e horas lendo textos feitos especialmente para dificultar a vida do leitor. Feitos para que o leitor veja (e sinta) como o “verdadeiro conhecimento” é difícil de ser adquirido. É como os famosos “trotes” que um jovem soldado recebe de seus superiores. Na primeira oportunidade de ascensão hierárquica, o ex-soldado raso (agora “veterano”) dará aos seus inferiores tratamento semelhante ao por ele recebido. É como um círculo-vicioso. Para ser respeitado, tenho que escrever textos pesados e eruditos. Porque não se escreve filosofia com maior liberdade e sensibilidade? Quem é o dono da filosofia?

O que seria o “conhecimento verdadeiro”, afinal? Será que é preciso ler quinhentas páginas de um livro chatíssimo para entender uma idéia que eu sou capaz de ter sozinho? E para que tanta complicação, senão para monopolizar o poder intelectual? Muitas vezes acabo sendo ridicularizado por ainda acreditar em uma popularização do conhecimento (que não é um bicho-de-sete-cabeças), porque acho que qualquer pessoa pode entender as idéias de um jurista ou filósofo, desde que tal idéia seja traduzida para um português simples e de fácil compreensão. Na minha opinião, o que existe é um certo medo acadêmico de se tratar questões tão complicadas (serão mesmo?!) com pessoas despreparadas ou mal instruídas. Preserva-se a filosofia, para que a mesma não seja banalizada por qualquer um. “A filosofia é uma construção penosa e trabalhosa”. “Não é justo que os estudantes passem cinco horas por dia lendo Kant para um “Zé Ninguém” qualquer vir dizer que não acredita no Imperativo Categórico” (?!). Parece bem razoável que alguém que leu a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, inteira vai, mesmo que inconscientemente, defendê-la como quem defende a si próprio. Há também aqueles que já a lêem com o intuito de criticá-la consistentemente. Em ambos os casos, a preocupação do leitor em dividir seu conhecimento é secundária, posto que sua dissertação/tese é o mais importante. Não que as questões filosóficas tradicionais não sejam, realmente, importantes, por favor! Mas pensemo-las também com nossas próprias cabeças, hoje! E vamos tratar de dividir nosso conhecimento, trocá-lo.

Já expliquei, por exemplo, algumas idéias que mesmo muitos colegas de faculdade não conhecem, sobre direito, política, física ou filosofia, para pessoas que sequer completaram o primeiro grau (e tenho certeza de que fui muito bem compreendido). Assim como já pude aprender muitas coisas com pessoas mais simples. Basta que se tenha clareza e não se perca em argumentações inúteis. Não que eu me considere melhor do que meus colegas. Muito pelo contrário, acho que, academicamente, tenho muito mais a aprender com eles do que eles comigo. Mas enfim, qualquer outro ser também tem muito a me ensinar. E muitas vezes os ensinamentos de uma pessoa mais simples são de maior utilidade prática do que os provenientes de um douto intelectual. Tenho consciência de que posso trocar com todas as pessoas, dando a elas um pouco de minhas idéias em troca das delas.

Em que pese o protecionismo de seu conhecimento, vejo que quase todos os membros da Academia possuem uma invejável compreensão, mesmo que teórica, da situação atual do nosso país, o que não significa que façam algo para mudá-la. Todos querem publicar seus artigos em revistas especializadas, de preferência norte-americanas, pois “é lá que os melhores estão”. Fico pensando se todos pudessem entender como funciona o Estado Democrático de Direito, como a distribuição da propriedade no país é injusta, e como nós somos manipulados e adestrados, tal como animais, por uma rede de televisão privada, talvez o problema filosófico da liberdade ganhasse novos sentidos. Não só na Academia, mas nas ruas. Será que sabemos o que é liberdade? Somos livres para saber isso?

A maioria das pessoas (mesmo muitos advogados, filósofos e estudantes em geral) acredita que o direito é apenas o que está na lei. Como seria se a população ficasse, repentinamente, sabendo que a Constituição é a lei superior à todas as outras e que ela elegeu o princípio da dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito brasileiro? Será que alguma lei inferior poderia contrariá-lo? Como seria se as pessoas ficassem sabendo que o direito positivo é positivamente submisso a uma série de princípios, que dão vida à nossa Constituição?

Minha dificuldade em escrever para a Academia está, em certa medida, concentrada na minha carência de vocabulário filosófico. Me faltam subsídios intelectuais que são pré-requisitos para uma linguagem que pelo menos aparente alguma erudição. Se eu estivesse aqui tratando, por exemplo, da “democracia em Habermas”, com base em leituras, citações, comentários e ambigüidades intermináveis, mesmo que estivesse fazendo um bom trabalho, me sentiria um tanto quanto violado e oprimido, por não poder expressar minha opinião sobre assuntos aos quais o Habermas me remete e eu não consigo ignorar. Mas reconheço que tenho que fazê-lo, e logo!

Atualmente, seguindo minha analogia futebolística, estou fazendo uma campanha mediana num campeonato bastante competitivo, passando por perto da tão temida “zona de rebaixamento”. Mas cabe lembrar que o campeonato que estou disputando não é por pontos corridos, de modo que ainda posso ser campeão, apesar das dificuldades. É nisso que eu tenho que acreditar, sempre! O fim de ano, que se apresenta como uma avalanche, promete bastante, pois por mais que meu "elenco" esteja longe de ser considerado como “galáctico”, eu, assim como o Grêmio, me agiganto é nos momentos decisivos. O jogo contra o poderoso time do Habermas é decisivo e será encarado como tal. Sei que vai ser uma peleia dura, mas não o temerei, jamais!

Porto Alegre, 7 de novembro de 2005.

Paulo

15.10.05

A Geral enlouqueceu

"Dále dalê dalê Grêmio, dalê dalê Grêmio, dalê, dalê Grê... Dalê Grêmio...
Dále!
Y dále Grêmio!
Y dále Grêmio!
Y dáleôôôôô...


Acabo de chegar, borracho e sem nenhum sinal de voz, do jogo do tricolor contra o Santo André. Poderia ficar horas aqui, apenas falando sobre o que aconteceu no monumental esta noite... Poderia falar sobre o fato de o tricolor ter entrado em campo com quase todos os reservas... Poderia ficar aqui reclamando do tal do Jacózinho, que, além de não jogar nada, acha que é o dono do time... Poderia, mas acho que esses dados foram apenas detalhes, contingentes, do que aconteceu.

Todavia, algumas pequenas considerações sobre a partida se fazem necessárias, pois são de um nível mais profundo. Por exemplo, nunca vi tantas gatinhas num jogo de futebol! Muitas mulheres pulando e cantando “somos campeões do mundo... da libertadores também...” Tem um trapo muito grande escrito “Las Geraldinas” no nosso estádio, sabiam? Eu ainda não sabia desse movimento. Vocês precisavam ver as gurias gritando e puxando as músicas... Pulando e gesticulando, como os homens mais fanáticos...

O Grêmio perdeu por dois a zero e a banda, que não se abala com nada mais, reforçada pela nova ala feminina, ficou cerca de vinte minutos depois do jogo cantando no estádio. Emocionante! No meio do jogo, rolou um tumulto contra a polícia, que saiu correndo, diante da avalanche de tricolores loucos, que foram, literalmente, “pra cima dos home”. Coisa de louco.

Depois de sair do estádio (já vazio, com as luzes se apagando, mas ainda cheio de malucos cantando na Geral), fomos para o boteco que já está virando tradicional entre meus amigos. Já até conheço os bebuns de lá, que sempre me saúdam com uma cerveja, na parceria. Cantei até minha voz se acabar, no sentido mais literal da palavra.

Agora, como não posso falar, escrevo. Escrevo para meus amigos que estão longe, mas também para eventuais leitores do meu “blog”. Escrevo pois não me resta mais nada hoje, senão desabafar, contar o que está acontecendo na minha vida, por mais chato que pareça. Uma viagem envolve muitas emoções e eu acho que vivi bastante das emoções relacionadas à viagem do Cadú, motivo pelo qual estou agora sentindo as seqüelas da tal da síndrome de quem fica. Fico, mas não definitivamente. Aliás, acho que nada pode ser tido por definitivo mais nessa vida.

Bom, infelizmente, não estou numa praia agora. Tampouco roubando beijos de mineirinhas de dezesseis anos. Estou bêbado, sem voz e sem dinheiro. Acho que devo descansar. Quanto aos meus amigos, desejo-lhes o mais profundo e verdadeiro amor. Desejo toda a paz e harmonia para que vocês realizem tudo o que acharem necessário.

Em breve, estarei por aí, mesmo que seja de visita.

Vamô vamô tricolor...
Hoje eu vim te apoiar
Para te ver campeão
Para te ver ganhar!


Geral do Grêmio

Paulo

13.10.05

“CIDADÃO DE BEM” ou “CIDADÃO DE BENS”?

Escrevi este texto para meus colegas (especialmente as minhas colegas), que estão a mandar-me suas manifestações pró armas de fogo. Não quero parecer arrogante, tampouco o dono da verdade, mas é que eu acho esse papo de pânico, com mil e uma teorias da conspiração, todas contra o tal do "cidadão de bem" um tanto quanto reacionário... De qualquer forma, acho que deveríamos estar lutando para poder viver em um lugar mais pacífico - e não bélico - no futuro.

Acho uma pena que a discussão esteja sendo tratada tão pateticamente pela mídia. Tanto a campanha pelo SIM quanto pelo NÃO se tornaram palanques eleitorais. De um lado, “petistas”, de outro, “anti-petistas”. Tenhamos maturidade para encarar a questão de uma forma mais séria e profunda, conforme me proponho a fazer. Como já falei, não sou o dono da verdade, apenas convido a quem estiver interessado para uma breve reflexão sobre o assunto.

Vocês já pararam para pensar no que consiste a idéia de "cidadão de bem"? O único argumento consistente pró-armamento é o de que se está discutindo a limitação de um direito individual, inerente ao “cidadão de bem”. Tenho plena consciência de que o desarmamento significa a limitação de um direito individual, mas pudera... Acho que este direito (o de andar armado) acaba ferindo o direito dos demais cidadãos de andarem tranqüilos.

Sei que existe um forte comércio ilegal de armas no Brasil, até porque é fato notório. Mas esse argumento de que se está a desarmar o "cidadão de bem" é ridículo. Até porque o conceito de "cidadão de bem" é muito vago.

Não estamos numa novela das oito, onde as pessoas ou são do bem ou são do mal. Todos somos bons e maus ao mesmo tempo. A diferença é que uns são oprimidos (a grande maioria) por uma minoria que detém os meios de produção e a propriedade, o que também é fato notório. Não precisamos nos prender a nenhuma teoria "marxiana", "rousseauniana" ou "hobbesiana". Basta que se tenha um pouco de senso crítico (nem precisa de muito) com relação à história da divisão da propriedade no Brasil, desde as capitanias hereditárias... Não é armando o burguês que o país irá melhorar, mas desarmando a todos.

Sei que pode parecer utópica essa idéia, mas o que seria de nós sem a utopia? Sem algo para lutar... Não com armas, mas com atitudes, com a razão. Votar pelo armamento é, no mínimo, consentir com a violência. É demonstrar uma faceta inerente ao ser humano: a covardia.

Como muitos de vocês, tive a oportunidade de viver um ano da minha vida na Europa, mais especificamente em Londres. Como vocês devem saber, no Reino Unido, as armas de fogo são proibidas. Ao longo de toda a minha estada lá, não cheguei a ver nenhuma arma de fogo. Tampouco fiquei sabendo de algum crime envolvendo tais tipos de armamento. Sei que a realidade lá é muito diferente da brasileira, mas apenas quero utilizar esse exemplo como um ideal. Não que a sociedade inglesa seja perfeita. Há muitas coisas por aqui que são melhores, acreditem... Apenas acho que devemos dar cada passo (mesmo que em um ritmo lento) em direção do nosso objetivo. Como diria Eduardo Galeano: “Eu dou um passo, ela dá dois...”. A utopia serve para que andemos na direção correta, mesmo que o caminho seja cada vez maior.

Além do mais, aqui no Brasil, o tal do "cidadão de bem" (burguês, cristão, de classe média, sem antecedentes criminais, com arma registrada) é o que mais mata, sabiam? Não vou citar nenhuma das estatísticas que estão sendo divulgadas, até porque os dois lados (SIM e NÃO) estão e expor estatísticas completamente distorcidas. Falo em realidade. É só irmos à um cartório de execuções penais e perguntarmos pra qualquer atendente se isso é ou não é verdade. Quem mais mata com armas de fogo no Brasil é o tal do "cidadão de bem".

Pergunto: será que o "cidadão de bem" de verdade precisa andar armado? Sendo que todos os revólveres são feitos exclusivamente para tirar vidas (não venham me dizer que a arma é para a caça, pois ninguém caça com um trinta e oito). Ou então, mudo a pergunta: será que algum ser humano está acima do bem e do mal a ponto de poder andar armado sem proporcionar risco à população?

Acho uma pena que muita gente boa, inteligente, esteja sendo seduzida a votar pelo "NÃO" apenas por causa do pavor que a campanha está impondo na população burguesa (a qual me incluo), que, a exemplo de todos, tanto pode ser "de bem", quanto "de mal". Acho uma pena a elite se auto-denominar “cidadãos de bem” e negarem tal status para as outras pessoas que são mais pobres e que atualmente estão se armando para buscar a igualdade “na marra”. Acho uma pena que tenhamos 50 milhões de analfabetos e que um professor primário ganhe um salário tão humilhante. Acho uma pena a Academia ser apenas um instrumento de disputas entre egos individuais. Acho uma pena termos a terceira pior distribuição de renda do mundo. Mas acho que um revólver em cada casa só pioraria as coisas...
Votarei pela limitação de um direito individual, sim, mas em nome do bem comum.

A pergunta é simples:

Onde tu queres viver? Queres viver em um lugar onde andar armado é errado? Ou será que tu achas melhor viver em um lugar onde andar armado é um direito do "cidadão de bem".

Eu confesso que tenho medo do "cidadão de bem"!!! Assim como tenho medo da polícia e dos bandidos (se é que podemos traçar uma linha divisória entre esses três tipos). Pensemos no ser humano, que não é bom nem mau, apenas um incrível mistério indecifrável. Desarmemos a todos! Porque todos somos imprevisíveis por natureza, temos nossos próprios segredos, mistérios... Todos sorrimos e choramos, brigamos e amamos... Façamos isso tudo sem armas por perto...

Não tapemos um buraco fazendo outro maior ainda! Lutemos pela dignidade, pela concretização dos direitos fundamentais. Lutemos contra a submissão cultural a qual estamos sendo impostos goela abaixo pela mídia. “América”, “Bang-Bang”: o que é isso? Lutemos contra essa violência cultural! Lutemos pela educação, pela distribuição de renda e de terras. Mostremos na prática porque queremos ser chamados de “cidadãos de bem” e não “cidadãos de bens”!

Respeito opiniões em contrário (até porque já tive a mesma opinião). Apenas alerto que não é feio mudar. Feio é não estarmos abertos, não termos humildade.

VAMOS ACORDAR!

Paulo